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Abdias Nascimento 93, escritor, professor-emérito de cultura africana no novo mundo da
Universidade do Estado de Nova York/Buffalo. Foi senador (91 e 94-98) e
deputado federal (83 a 87). É um dos signatários do "Manifesto em favor da
Lei de Cotas e do Estatuto da Igualdade Racial", entregue ao Congresso
Nacional nesta semana.
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Ação
afirmativa o debate como vitória
Da
tribuna da Câmara costumava dizer que a Abolição da Escravatura no Brasil não
passava de uma bela mentira cívica. Hoje posso reafirmá-lo com o apoio de
pesquisas quantitativas produzidas nas últimas décadas por instituições
respeitadas como o IBGE e o DIEESE, que vêm revelando a extensão do hiato entre
negros e brancos no Brasil.
A diferença nos salários, na escolaridade, na expectativa de vida e na
mortalidade infantil mostra uma desigualdade racial tão ampla, persistente e
difusa que não pode ser explicada pela herança da escravidão ou as diferenças
de classe.
Pesquisas qualitativas mostram os mecanismos de racismo nas escolas e nos meios
de comunicação, responsáveis por manter, reforçar e atualizar a imagem (e
auto-imagem) negativa da população negra. A polícia e o Judiciário dispensam um
tratamento discriminatório aos afro-brasileiros no contexto de um quadro de
violência em que os jovens negros sofrem uma elevadíssima taxa de mortalidade.
Tudo isso contribui para manter a população negra afastada das riquezas do
país, na base da pirâmide social, nas piores condições de saúde e habitação.
Agregado à ideologia do branqueamento, esse quadro me levou a denunciar o
genocídio contra os negros no Brasil.
Levantamentos feitos por órgãos de pesquisa encontram eco em relatórios como os
da OEA (Organização dos Estados Americanos) e da Comissão dos Direitos Humanos
da ONU. O mito da "democracia racial" vem sofrendo um golpe de morte,
apesar dos esforços revivalistas de uma pequena elite acadêmica.
O movimento negro e seus aliados nas arenas da academia, da política e da mídia
passaram a elaborar e propor medidas, não para acabar com o racismo e a
discriminação, o que seria demasiado ambicioso, mas para elevar a auto-estima
da população negra e proporcionar-lhe um grau de igualdade de oportunidades.
As notas dos alunos cotistas são semelhantes às
dos demais, desmentindo as previsões catastrofistas de queda do padrão de
ensino
Desde 2001, medidas de ação afirmativa têm sido adotadas pelo governo federal,
por Estados e municípios, nas áreas do ensino superior e do funcionalismo
público. O sistema de cotas para negros (e também para indígenas, segundo a
região) está sendo implementado por cerca de 30 universidades públicas,
federais e estaduais, com resultados que superam as expectativas: as notas dos
alunos cotistas são semelhantes às dos demais, desmentindo as previsões
catastrofistas anunciadoras de uma possível queda do padrão de ensino. Há
vários exemplos de alunos cotistas cujo desempenho acadêmico supera a média
atingida pela maioria de seus colegas não-cotistas.
Outra conquista da luta anti-racista foi a lei nº 10.639, que inclui o ensino
da história e da cultura africanas e afro-brasileiras nos currículos escolares,
com o que se pretende abalar um dos pilares da construção de estereótipos
racistas. Como não poderia deixar de ser, setores da elite branca passaram a
articular uma reação. A mídia tem tido papel de destaque nesse processo,
fabricando uma "opinião pública" contrária à ação afirmativa por meio
de reportagens tendenciosas e editoriais apocalípticos. Enquanto isso, setores
da elite acadêmica se empenham em desqualificar as pesquisas sobre desigualdade
racial, em um comportamento semelhante ao de políticos em véspera de eleição.
Ao mesmo tempo, a noção de que raça não existe, hoje predominante na biologia,
é transplantada para a vida social. Num passe de mágica, deixam de existir as
raças como categorias sociais historicamente construídas e também o racismo. A
intenção dessa falsificação canhestra é transformar os negros de alvos em
produtores do racismo.
A realização, em poucos dias, de duas manifestações, uma contra e outra a favor
da ação afirmativa mostra que existe vida inteligente dos dois lados do debate.
A discussão que ora se trava não será decidida no âmbito das ciências
jurídicas, sociais ou econômicas, já que nelas encontramos elementos favoráveis
às duas posições.
Trata-se de um debate eminentemente político, que reflete a visão de mundo dos
que dele participam, e também -o que se costuma deixar de lado- as posições que
cada um ocupa na sociedade. Esse debate, em uma sociedade que antes se refugia
nas fantasias da "democracia racial", é o melhor produto da ação
afirmativa até o momento.
De e minha parte, tenho certeza de que a ação afirmativa favorece a nação
brasileira, ampliando as oportunidades abertas à maioria de nossa juventude
para que esses meninos nos ajudem a superar as dificuldades que nos afligem há
séculos.
Fonte: Folha de São Paulo, 7 de julho de 2006 |
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