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Aprendi desde muito pequena com minha mãe a perceber e buscar
soluções para os problemas das mulheres. Ainda com
a minha mãe aprendi que cor da pele ou etnia, origem
social e sexo são fatores que fazem muita diferença
nos níveis em que a opressão contra a mulher é manifestada.
Tive uma infância com problemas decorrentes
da pobreza, porém ao mesmo tempo feliz, pois conseguia
estudar e passar por boas escolas públicas .Quando
adolescente comecei a participar de movimentos sociais
como líder estudantil e, posteriormente, no início
dos anos 80, participei ativamente da organização
e consolidação do Sindicato dos Profissionais em
Educação do Estado do Rio de Janeiro. Durante a
década de 80 amplio a minha participação nos movimentos
sociais assumindo papéis de liderança em diversas
atividades do movimento feminista e do movimento
negro. Em 1988, fiz parte da Comissão Executiva
que teve a incumbência de realizar o I Encontro
Nacional de Mulheres Negras, logo após fui eleita
como representante do Rio de Janeiro para a Coordenação
Nacional da Mulher Negra, tendo assim participado
da organização do II Encontro Nacional de
Mulheres Negras.
Percebi, como muitas outras mulheres negras,
que se o movimento negro nos dava régua e compasso
nas questões raciais, o movimento feminista também
o fazia nas questões das mulheres. Porém, nenhum
dos dois, atendia a nossa especificidade de mulher
e negra. Meus anos de experiência têm mostrado o
tamanho da responsa-bilidade da minha luta contra
todas as formas de opressão, preconceito e discriminação
contra a mulher.
Em 4 de dezembro de 1994 seis companheiras e
eu fundamos o Centro de Documentação e Informação
Coisa de Mulher, uma Ong de mulheres que tem a luta
contra o racismo, o sexismo e a homofobia como eixo
político. Não foi nada fácil àquela época e não
o é ainda hoje, mas sempre gratificante e hoje
não se ousa fazer qualquer movimento sem que as
mulheres negras estejam presentes e, em diversas
ocasiões somos protagonistas.
2. Quais são as principais
barreiras encontradas pelas mulheres no século XXI?
Como as mulheres são singulares e plurais ao
mesmo tempo, barreiras para umas não são necessariamente
as mesmas para outras. Diferentes níveis de
escolaridade, a etnia, a orientação sexual, local
de moradia, a idade, o tipo de ocupação profissional,
a religião, se portadora ou não de deficiência,
são alguns dos fatores que diferenciam as barreiras
encontradas e que demarcam de quais mulheres estamos
tratando. Há porém, barreiras que são comuns a todas:
a lógica patriarcal e machista que permeia
toda a organização social em pleno século 21 é ainda
uma barreira muito pesada para todas as mulheres.
Parece contraditório, mas as mulheres encontram
no espaço da organização política muitas barreiras.
Em função do machismo, muitas vezes fica complicada
a intersecção do movimento feminista com muitos
outros movimentos sociais. Mesmo nos movimentos
GLBT e Negro encontramos machismo e misoginia. Nos
movimentos de trabalhadores, a violência contra
as mulheres, a discriminação salarial e questões
relativas ao aborto e mortalidade materna não são
considerados pontos relevantes. Dentro do próprio
movimento de mulheres, há grupos que encontram barreiras,
como as lésbicas, por exemplo.
3. Quais os avanços
que a senhora identifica nas políticas públicas
voltadas para a redução da desigualdade de gênero?
O movimento feminista avançou muito, principalmente
nos últimos anos. Porém, temos ainda muito a fazer.
Para validarmos os compromissos assumidos
pelos Estados em Pequim e em outras convenções internacionais
de mulheres, é necessário fazê-los tomar medidas
que mexam nas estruturas social, política,econômica
e cultural. É verdade que muitos países guiados
pela pressão do movimento de mulheres, se esforçam
para cumprir o que foi assinado, haja vista o número
de mulheres parlamentares que aumentou, pouco porém,
em todo o mundo, entretanto os direitos humanos
das mulheres continuam a ser violados de uma forma
inaceitável.
4. Quais s ão as principais
atividades desenvolvidas pelo Centro de Documentação
e Informação Coisa de Mulher (CEDOICOM)?
O Centro de Documentação e Informação Coisa de
Mulher tem atuado de forma a influir não somente
na gestão de políticas públicas dirigidas às mulheres,
como também contribuir para mudanças políticas e
sociais. Assim, o CEDOICOM tem executado inúmeros
projetos procurando contribuir para que ocorram
mudanças estruturais para eliminação da forte
combinação existente entre gênero, raça e
pobreza na sociedade brasileira; trabalhamos
muito com prevenção à violência sistemática
contra mulheres e meninas. A partir de nosso programa
com adolescentes negras, foi criado o Fórum Estadual
de Jovens Negras, onde adolescentes de várias comunidades
e bairros do Rio de Janeiro reúnem-se para
tratarem de temas específicos; desenvolvemos trabalhos
dirigidos às mulheres presas e às agentes
penitenciárias e há o COLERJ ,Coletivo de Lésbicas
Elizabeth Calvet que é um espaço de reflexão
e ação política das mulheres lésbicas, principalmente
negras.
5. Que outras lutas
podem estar articuladas com a questão de gênero
na sociedade brasileira?
Penso que todas. Acho o movimento de mulheres
muito aberto e disposto a dialogar com vários segmentos
da sociedade que tenham interesse e compromisso
com a eqüidade de gênero.
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