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Entrevista com Neusa das Dores

1. Fale um pouco sobre seu histórico de militância no movimento de mulheres?

Tenho uma trajetória que considero interessante em minha formação. O meu primeiro espaço de luta por respeito e igualdade de gênero foi a minha casa ainda no meu período de infância. Por diversas vezes testemunhei a minha mãe, uma mulher pobre semiletrada, cozinheira - uma das lideranças do Lins do Vasconcelos - defender e abrigar na nossa casa mulheres que sofriam violência por parte de seus maridos.  

 

Neusa das Dores

Uma das fundadoras do Centro de Documentação e Informação Coisa de Mulher.

 

 

Aprendi desde muito pequena com minha mãe a perceber e buscar soluções para os problemas das mulheres. Ainda com a minha mãe aprendi que cor da pele ou etnia, origem social e sexo são fatores que fazem muita diferença nos níveis em que a opressão contra a mulher é manifestada.

Tive uma infância com problemas decorrentes da pobreza, porém ao mesmo tempo feliz, pois conseguia estudar e passar por boas escolas públicas .Quando adolescente comecei a participar de movimentos sociais como líder estudantil e, posteriormente, no início dos anos 80, participei ativamente da organização e consolidação do Sindicato dos Profissionais em Educação do Estado do Rio de Janeiro. Durante a década de 80 amplio a minha participação nos movimentos sociais assumindo papéis de liderança em diversas atividades do movimento feminista e do movimento negro. Em 1988, fiz parte da Comissão Executiva que teve a incumbência de realizar o I Encontro Nacional de Mulheres Negras, logo após fui eleita como representante do Rio de Janeiro para a Coordenação Nacional da Mulher Negra, tendo assim participado da organização  do II Encontro Nacional de Mulheres Negras.

Percebi, como muitas outras mulheres negras, que se o movimento negro nos dava régua e compasso nas questões raciais, o movimento feminista também o fazia nas questões das mulheres. Porém, nenhum dos dois, atendia a nossa especificidade de mulher e negra. Meus anos de experiência têm mostrado o tamanho da responsa-bilidade da minha luta contra todas as formas de opressão, preconceito e discriminação contra a mulher.

Em 4 de dezembro de 1994 seis companheiras e eu fundamos o Centro de Documentação e Informação Coisa de Mulher, uma Ong de mulheres que tem a luta contra o racismo, o sexismo e a homofobia como eixo político. Não foi nada fácil àquela época e não o é ainda hoje, mas sempre gratificante e  hoje não se ousa fazer qualquer movimento sem que as mulheres negras estejam presentes e, em diversas ocasiões somos protagonistas.

2. Quais são as principais barreiras encontradas pelas mulheres no século XXI?

Como as mulheres são singulares e plurais ao mesmo tempo, barreiras para umas não são necessariamente as mesmas para outras.  Diferentes níveis de escolaridade, a etnia, a orientação sexual, local de moradia, a idade, o tipo de ocupação profissional, a religião, se portadora ou não de deficiência, são alguns dos fatores que diferenciam as barreiras encontradas e que demarcam de quais mulheres estamos tratando. Há porém, barreiras que são comuns a todas:  a lógica patriarcal e machista que permeia toda a organização social em pleno século 21 é ainda uma barreira muito pesada para todas as mulheres. Parece contraditório, mas as mulheres encontram no espaço da organização política muitas barreiras. Em função do machismo, muitas vezes fica complicada a intersecção do movimento feminista com muitos outros movimentos sociais. Mesmo nos movimentos GLBT e Negro encontramos machismo e misoginia. Nos movimentos de trabalhadores, a violência contra as mulheres, a discriminação salarial e questões relativas ao aborto e mortalidade materna não são considerados pontos relevantes. Dentro do próprio movimento de mulheres, há grupos que encontram barreiras, como as lésbicas, por exemplo.

3. Quais os avanços que a senhora identifica nas políticas públicas voltadas para a redução da desigualdade de gênero?

O movimento feminista avançou muito, principalmente nos últimos anos. Porém, temos ainda muito a fazer.  Para validarmos os compromissos assumidos pelos Estados em Pequim e em outras convenções internacionais de mulheres, é necessário fazê-los tomar medidas que mexam nas estruturas social, política,econômica e cultural. É verdade que muitos países guiados pela pressão do movimento de mulheres, se esforçam para cumprir o que foi assinado, haja vista o número de mulheres parlamentares que aumentou, pouco porém, em todo o mundo, entretanto  os direitos humanos das mulheres continuam a ser violados de uma forma inaceitável.

4. Quais s ão as principais atividades desenvolvidas pelo Centro de Documentação e Informação Coisa de Mulher (CEDOICOM)?

O Centro de Documentação e Informação Coisa de Mulher tem atuado de forma a influir não somente na gestão de políticas públicas dirigidas às mulheres, como também contribuir para mudanças políticas e sociais.  Assim, o CEDOICOM tem executado inúmeros projetos procurando  contribuir para que ocorram  mudanças estruturais para eliminação da forte combinação existente entre gênero, raça  e pobreza na sociedade brasileira;  trabalhamos muito com  prevenção à violência sistemática contra mulheres e meninas. A partir de nosso programa com adolescentes negras, foi criado o Fórum Estadual de Jovens Negras, onde adolescentes de várias comunidades e bairros do Rio de Janeiro  reúnem-se para tratarem de temas específicos; desenvolvemos trabalhos dirigidos às mulheres presas e  às agentes penitenciárias e há o COLERJ ,Coletivo de Lésbicas Elizabeth Calvet que é um  espaço de reflexão e ação política das mulheres lésbicas, principalmente negras.

5. Que outras lutas podem estar articuladas com a questão de gênero na sociedade brasileira?

Penso que todas. Acho o movimento de mulheres muito aberto e disposto a dialogar com vários segmentos da sociedade que tenham interesse e compromisso com a eqüidade de gênero.