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A construção dessa vontade política é um processo complexo
mas tem a seu favor, não só um punhado de convenções internacionais, como
também e, sobretudo, a força política dos movimentos sociais protagonizados
pelas vítimas inconformadas da discriminação racial. A viragem descolonial para
ser eficaz, tem de ocorrer no Estado e na sociedade, no espaço público e no
espaço privado, no trabalho e no lazer, na educação e na saúde. É, pois, um
processo civilizatório, tão complexo quanto irreversível.
A
modernidade ocidental foi na sua origem, simultaneamente um processo europeu,
dotado de mecanismos poderosos como a liberdade, igualdade, secularização, inovação
científica, direito internacional e progresso, e um processo extra-europeu,
dotado de mecanismos não menos poderosos como o colonialismo, racismo,
genocídio, escravatura, destruição cultural, impunidade, não-ética da guerra.
Um não existiria sem o outro. Por terem sido concedidas aos descendentes dos
colonos europeus e não aos povos originários ou aos para aqui trazidos pela
escravatura (com excepção do Haiti), as independências latino americanas
legitimaram o novo poder por via dos mecanismos do processo europeu para
poderem continuar a exercê-lo por via dos mecanismos do processo extra europeu.
Assim se naturalizou um sistema de poder que, sem contradição aparente, afirma
a liberdade e a igualdade e pratica a opressão e a desigualdade. Um sistema até
hoje em vigor, ou seja, até à entrada no período pós-colonial.
Assentes
neste sistema de poder, os ideais republicanos da igualdade constituem uma
hipocrisia sistémica. Só quem pertence à raça dominante tem o direito (e a
arrogância) de dizer que a raça não existe ou que a identidade étnica é uma
invenção. Uma democracia hipócrita não chega sequer a ter o mérito da
hipocrisia democratizada. O máximo de consciência possível desta democracia
hipócrita é diluir a discriminação racial na discriminação social. Admite que
os negros e os indígenas são discriminados porque são pobres para não ter de
admitir que eles são pobres porque são negros e indígenas. É, pois, uma
democracia de muito baixa intensidade. A sua crise final começa no momento em
que as vítimas da discriminação se organizam para lutar contra a ideologia que
os declara ausentes e as práticas que os oprimem enquanto presenças
desvalorizadas. São lutas por uma democracia de alta intensidade e por um
republicanismo robusto. Distinguem-se dos seus antecessores por duas razões. Em
primeiro lugar, assentam na luta simultânea pela igualdade e pelo
reconhecimento da diferença. Reivindicam o direito de ser iguais quando a
diferença os inferioriza e o direito de ser diferentes quando a igualdade os
descaracteriza. Em segundo lugar,
apostam em soluções institucionais dentro e fora do Estado para que o
reconhecimento dos dois princípios seja efectivo. Daí a luta pelos projectos de
lei de Cotas e do Estatuto da Igualdade Racial. O alto valor democrático destes
projectos de lei reside na ideia de que o reconhecimento da existência do
racismo só é legítimo quando visa a eliminação do racismo. É o único antídoto
eficaz contra os que têm o poder de desconhecer ou negar o racismo para o
continuarem a praticar impunemente.
Estes
projectos de lei, se aprovados e aplicados, darão ao Brasil uma nova autoridade
moral e um novo protagonismo político no plano internacional. Mas será, no
plano interno, que os seus efeitos positivos mais se farão sentir: a construção
de uma coesão social sem a enorme sombra do silêncio dos excluídos. Para que
tal ocorra, os movimentos sociais não podem confiar demasiado na vontade dos
governantes dado que eles são produtos do sistema de poder que naturalizou a
discriminação racial. Para que eles sintam a vontade de se descolonizarem é
necessário pressioná-los e mostrar-lhes que o seu futuro colonial tem os dias
contados. Esta pressão não pode ser obra exclusiva do movimento negro e do
movimento indígena. É necessário que o MST, os movimentos de direitos humanos,
sindicais, feministas, ecológicos, etc., se juntem à luta no entendimento de
que, no momento presente, a luta pelas cotas e pela igualdade racial condensa,
de modo privilegiado, as contradições de que nascem todas as outras lutas em
que estão envolvidos.
Fonte: Folha de S.Paulo, 11/08/2006
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