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A Tese “Crítica da Razão Culturalista...” tinha por objetivo
central entender como o discurso sociológico e antropológico brasileiro refletiu
sobre o tema das desigualdades raciais em nosso país. O motivo dessa pergunta
decorreu do fato de que se é verdade que boa parte daqueles autores era
bastante otimista quanto ao perfil do modelo brasileiro de relações raciais,
por outro lado, aquelas contribuições também reconheciam a efetiva existência
de discrepâncias entre brancos e negros, e os mestiços das diversas matizes,
não somente em termos das respectivas condições materiais de existência, mas,
igualmente, em termos políticos e simbólicos (que as principais correntes da
sociologia norte-americana costumam chamar de prestígio social).
Portanto busquei na Tese entender a forma pela qual aquele
conjunto selecionado de autores vinculados à tradição culturalista (Freyre,
Pierson, Wagley, Thales de Azevedo, René Ribeiro, Oracy Nogueira, Roberto
daMatta, o pensamento culturalista contemporâneo, Tannembaum, Elkins, Marvin
Harris, H. Hoetink Van Der Berghe, Degler) entenderam o problema de construção
das disparidades raciais brasileiras tentando desenvolver os seguintes temas:
i) as contradições internas presentes no discurso desses autores; ii) as formas
implícitas de reconhecimento de que as disparidades raciais eram geradas por
motores dinâmicos originadas no próprio modelo brasileiro de relações raciais e
não em fatores outros, especialmente o legado do passado escravista; iii)
tentar encontrar as pontes entre a análise quantitativa do estudo das relações
raciais, baseado em indicadores demográficos e sociais, e as abordagens
usualmente identificadas como qualitativas. Assim, debati, e divergi, com um
determinado ponto de vista presente no interior do pensamento social de nosso
país que entende os estudos das relações raciais brasileiras como separados por
um muro epistemológico entre as abordagens qualitativas e quantitativas, ou
entre os enfoques micro e macro-estruturais.
Por esse último motivo que na última parte da minha Tese
estabeleci um debate com três cientistas sociais, associados às tradições
estruturalistas de compreensão das dinâmicas das relações raciais brasileiras,
Florestan Fernandes (e mais secundariamente Roger Bastide), C Hasenbalg e
Nelson do Valle Silva, buscando entender como esses autores lidaram com a
reflexão culturalista e as possíveis influências desse marco conceitual no
interior de suas obras.
Não acho razoável deixar a modéstia de lado em se tratando
de um trabalho de natureza acadêmica. Portanto, para além das preciosas
considerações críticas da Banca de Defesa (Professores Adalberto M Cardoso,
orientador; C Hasenbalg, Presidente da Banca; Antônio S Guimarães, Luiz Werneck
Vianna e Marcos Chor Maio), é necessário ouvir as demais considerações críticas
sobre meu estudo para que possamos dimensionar as contribuições efetivas que a
Tese possa ter trazido. Mas, enfim, permito-me apontar um especial carinho que
tenho pelo capítulo 6 do estudo, Lenda da
Modernidade Encantada, onde debato criticamente com os estudos
culturalistas contemporâneos sobre as relações raciais brasileiras.
2- Atualmente o debate
sobre o projeto de lei 73/99 no Congresso prioriza as cotas sociais, ao mesmo
tempo em que tem sido contestada a relevância da inclusão das cotas raciais. O
senhor considera importante ou não considerar o critério de renda dos
candidatos às cotas raciais? Por quê?
Para um país como o Brasil, marcado por suas extremadas
disparidades de rendimentos, não se levar em consideração critérios econômicos
quando da adoção de políticas públicas me pareceria um enorme equívoco.
Todavia, as resistências a inclusão da variável racial no interior das
políticas, para além da sua dimensão social mais estrita igualmente me soa um
enorme erro. No fundo esse último óbice ainda é derivado das dificuldades das
autoridades, e da sociedade brasileira no seu conjunto, perceberem os danos
causados aos afrodescendentes por causa do preconceito racial e do racismo, tal
como existentes no Brasil. Sou partidário de que as políticas de ação
afirmativa devam ser gestadas de forma combinada entre critérios sociais e
raciais. Destarte teremos condições de enfrentar o duplo dano causado tanto
pelo preconceito social, como pelo preconceito racial.
3- Os argumentos
contrários às políticas de cotas, afirmam que um dos resultados desta medida
seria a formação de uma elite negra no Brasil. O senhor acredita que este pode
ser um dos reflexos desta política no Brasil? Seria possível apontar alguma
alteração na conjuntura econômica do Brasil a partir deste fato?
Acho engraçada essa crítica à formação de uma elite negra
como se isso fosse um problema por si mesmo. Ora, todo o processo de
constituição do Brasil enquanto um país industrializado e moderno ao longo de
todo o século XX foi feito pela mão visível do Estado que financiou abertamente
determinados grupos sócio-raciais desse país que hoje formam o grosso de nossas
classes média alta e alta (cuja tez racial me permitirei omitir qual seja). A
própria constituição de determinadas Universidades (USP, UFRJ, UNICAMP, UnB) é
incompreensível sem essa perspectiva existente de formação de uma elite
capacitada para comandar os destinos da nação rumo ao desenvolvimento. O mesmo
vale para instituições como o BNDES, IPEA, Petrobrás e para programas de
governo como o finado BNH, todos estes, tal como uma ação afirmativa às
inversas, beneficiando fundamentalmente determinados contingentes da nossa
população.
Por outro lado, a própria dinâmica dos movimentos sociais
brasileiros aponta para a importância da formação de elites políticas e
teóricas. Lula e seus companheiros de greves do ABC, nos anos 1970, formavam
uma elite do operariado brasileiro. O movimento feminista em grande medida teve
seu impulso inicial a partir das lutas das mulheres das classes média e alta.
Seria razoável que deslegitimássemos aquelas iniciativas contestatórias somente
por esse motivo?
Portanto, é importante dizer de forma limpa e cristalina que
a formação de uma elite negra no Brasil em termos intelectuais, políticos e
econômicos é absolutamente cabível e desejável. É, do ponto de vista moral,
simplesmente impensável a hipótese de que os brasileiros do século XXI
continuarão a viver em uma sociedade no qual os negros prossigam tendo um
acesso tão restrito às Universidades, mercado de trabalho formal e aos espaços
de representação.
Esses setores de elite devem ter a capacidade de pensarem o
país estrategicamente de modo a servirem de ponte para que as grandes massas
afrodescendentes possam percorrer um caminho semelhante no futuro. Se essas
virtuais elites negras terão essa capacidade de gerar esse novo dinamismo
democrático ou não é uma questão impossível de ser mencionada agora. Mas esse
caminho terá de ser percorrido. Eventuais equívocos terão de ser corrigidos no
caminho.
4- A política
econômica brasileira tem como princípio ações universalistas, que atendam as
populações excluídas e os pobres como em geral. O senhor julga ser importante
considerar o recorte racial nas elaborações de políticas econômicas para
população brasileira?
Discordo da abordagem que aponta que as políticas sociais
brasileiras, ao longo de nossa história, tenham universalistas. Nunca o foram.
A partir dos anos 1930 (antes disso não se pode falar sequer
da existência de políticas sociais) as ações do poder público tinham por alvo
primordial os trabalhadores do mercado de trabalho formal das áreas urbanas.
Portanto ficavam de fora os trabalhadores rurais e os setores urbanos que
labutavam na informalidade. Vale salientar que em ambos os setores, ao
contrário do mercado de trabalho formal, não somente a população brasileira,
mas, como, igualmente os afrodescendentes sempre formaram uma conspícua
maioria.
Na verdade algumas medidas geradas pelo poder público até
guardavam um importante papel para esses setores, sinalizando patamares de
direito sociais e padrões de remuneração, tal como é o caso da Carteira de
Trabalho (até hoje o principal instrumento de proteção do trabalhador
brasileiro contra as arbitrariedades do poder público, especialmente o
policial) e o salário mínimo. Por isso Getúlio Vargas logrou passar a imagem,
para amplos segmentos da população trabalhadora brasileira (para além dos
vinculados aos vínculos empregatícios formais), de que era o “pai dos pobres”. Mas isso estava longe
de representar a universalização das políticas sociais, antes denotando os
efeitos positivos, não pensados originalmente, de uma legislação que visava
regular as condições ocupacionais dos trabalhadores das grandes empresas e do
poder público.
Já com a Constituição cidadã
de 1988 houve uma alteração na perspectiva do raio de alcance dos sistemas de
proteção social no Brasil. Assim, foram sendo aprovados diversos mecanismos de
evidente intenção universalizante das políticas sociais, tal como foi o caso da
rede de ensino público de primeiro grau, do SUS, do Estatuto da Criança e do
Adolescente, do Estatuto do Idoso e do sistema previdenciário, mormente através
da criação dos benefícios de caráter não contributivo, tal como foi o caso da
LOAS e da Previdência Rural. Esses dois últimos instrumentos (especialmente
esse último) tiveram um importante papel em termos da redução da pobreza no
meio rural brasileiro, notadamente na região Nordeste.
De todo modo, cabe salientar que o processo de implantação
daquelas medidas se deu em um contexto de perda da capacidade de investimento
por parte do poder público, afogado pelas crises da dívida externa e interna,
da inflação e da estagnação econômica. O efeito disso foi que ao contrário de
políticas universais tivemos uma espécie de focalização às ocultas das
políticas sociais, pois a expansão dos sistemas de atendimento para um público
mais amplo se fez acompanhar pela correspondente queda de sua qualidade. Os
exemplos conspícuos nesse plano foram os ocorridos com os nossos sistemas de
saúde, educação, segurança pública e mesmo previdenciário. Ou seja, nesses
casos as classes médias, médias-altas e altas abandonaram o sistema público
passando a obter no mercado aqueles serviços. Tal efeito não pode ser
dissociado do tema das relações raciais, pois se para a maioria dos negros o
contexto posterior a 1988 representou a chance de acesso a determinados
serviços, isso se deu de forma extremamente precária.
Em suma, não se pode considerar universal uma política pública
que não atenda efetivamente a todas as pessoas ou que, quando o faça, acabe
provendo serviços de qualidade tão ruim que somente os extremamente
necessitados acabarão os demandando efetivamente.
O fato é que no Brasil, antes que universais, as medidas
para a área social foram cegas à cor. Se tal perspectiva no plano legal foi positiva,
pois não criou formas legais de apartação racial entre os brasileiros, no plano
das condições de vida dos distintos grupos raciais, tal perspectiva não serviu
para a redução dos hiatos nas condições de vida dos contingentes dos
brasileiros brancos e negros.
Portanto, a perspectiva que defendo é de um universalismo
anti-racista, no qual o parâmetro da ação deva ser o atendimento de toda a
população com os serviços básicos e essenciais, concomitantemente em que se
deve perseguir com denodo e esmero, o princípio da redução das desigualdades
raciais. Veja bem, não considero que a mera universalização dos serviços
públicos vá causar esses efeitos positivos. Essa universalização guarda um
papel necessário, porém, insuficiente. Tal resultado somente será atingido com
o explícito reconhecimento, por parte das autoridades, dos problemas sociais
ocasionados pelo, usando os termos de Ed Telles, racismo à brasileira e com a mobilização de esforços em prol, tanto
da superação dessas práticas sociais nefandas, como de seus efeitos deletérios.
5- Como a questão
racial pode ser inserida nos estudos no campo da Economia? É possível perceber
alguma tendência de ampliação dos estudos acadêmicos que abordem essa temática
na universidade, principalmente após a emergência do debate racial na sociedade
brasileiras nestes últimos anos?
Não existe no interior da longa tradição do pensamento
econômico brasileiro um campo consolidado de estudos na seara das disparidades
raciais. Os motivos dessa lacuna obedecem, em primeiro lugar, a um fator de
ordem teórica geral reportado ao fato de que o discurso econômico tende a
analisar o seu objeto desde uma perspectiva estrutural, deixando pouca margem
para o entendimento de práticas sociais, como o preconceito racial e o racismo,
que somente em parte remetem ao comportamento típico do agente racional,
englobando aspectos culturais, subjetivos e mesmo psiquiátricos.
Essa dificuldade é recorrente em ambos os lados da margem
ideológica em termos das escolas de pensamento econômico. Isto é, a ausência de
reflexões sobre a temática das relações raciais é comum tanto ao campo
heterodoxo (marxistas, keynesiano, cepalino, schumpeteriano), como no campo
ortodoxo (clássicos e neo-clássico).
Por outro lado, trazendo essas reflexões para o nosso meio,
é óbvio que o mito da democracia racial foi solidário com àquelas dificuldades.
Ou seja, na medida em que o racismo, no Brasil, era tido por inexistente, tal
mistificação poupava um enorme trabalho aos economistas das diversas vertentes,
que assim não tinham maiores motivos para problematizar uma questão que o
próprio estado-da-arte nesse campo do conhecimento já tratara de descartar.
Em suma, no interior do pensamento econômico, tanto
internacional como o nacional, o estudo das relações raciais enfrentou a
problemática do racismo e do preconceito racial como uma espécie de quarta
dimensão. Por incrível que pareça essa dificuldade ocorre mesmo quando dos
estudos sobre história econômica, no qual o tema das relações escravistas de
produção deveria assumir o eixo da análise. Em suma, essa escotoma acabou
tolhendo o desenvolvimento do estudo das relações raciais como um campo
relevante e consolidado de estudos no interior das ciências econômicas.
Atendo-me ao que vem ocorrendo mais recentemente no ambiente
acadêmico brasileiro, o fato é que nos últimos cinco anos diversos economistas
(Mario Theodoro, Ricardo Henriques, Serguei Soares, além do próprio autor
dessas linhas) passaram a desenvolver estudos no tema das relações raciais. Com
isso, a aplicação das ferramentas típicas das ciências econômicas (uso
sistemático de indicadores quantitativos às análises sociais, incorporação das
variáveis estruturais nas abordagens, o entendimento dos problemas sociais à
luz do princípio de que os agentes econômicos racionais perseguem a cada
instante seu próprio interesse material); à compreensão desse tema permitiu
importantes avanços em termos não somente sociais, mas, igualmente, na seara mais
propriamente acadêmica. Tal fato vem contribuindo para uma reversão daquele
cenário que mencionei há pouco.
De todo modo, mesmo o somatório de todas as contribuições
recentes ainda são insuficientes para uma plena compreensão do motor dinâmico
das desigualdades raciais em nosso país. Existe uma larga avenida para que
novas inteligências, no interior do pensamento econômico, se somem aos esforços
existentes em prol da superação das iniqüidades raciais no Brasil.
Ao amigo e amiga, leitor/a, por favor, não deixe, de
entender essas últimas linhas como um convite para se somem nesse esforço de
uma plena compreensão, e transformação, da sociedade brasileira.
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