Até aqui nos ajudou Zumbi...

Agora trata-se de estar à sua altura.

O que significa isto?

Ora, se 225 municípios em todas as regiões do país saúdam oficialmente o dia Nacional da Consciência Negra e o ícone ZUMBI (com feriados ou outras formas); e multiplicam-se as escolas e todo tipo de instituições nos quais ele está pleno de vida nesse mês de Novembro, é imperioso, nesse momento,  refletir sobre o agente político coletivo através do qual tudo isso foi instituído.

 

Amauri Mendes Pereira
Especialista em História
da África, Mestre em Educação-UERJ e Doutor em Ciências Sociais - UERJ

 
 

Aos trancos e barrancos o Movimento Negro vem cumprindo um papel extraordinário: obrigando a sociedade brasileira a se pensar para além dos valores inculcados ao longo de séculos de escravismo, de espoliação econômica e opressão política, e do colonialismo cultural que, ainda hoje, vem "fazendo cabeças".

Aos poucos vai ficando mais evidente, tanto no terreno da instituição política quanto para a comunidade de estudiosos dos problemas brasileiros contemporâneos, a envergadura dos processos através dos quais o Movimento Negro emerge na cena histórica rompendo com uma questão sensível nos sonhos das elites brasileiras: a construção de uma nação etnicamente homogênea, em que a superioridade (cultural e biológica) branca diluiria a "mancha negra".[1]

Esse tipo de idealização foi rompido pelo fenômeno da Frente Negra Brasileira que, entre 1931 e 1937, impactou São Paulo – vasta militância, ostensiva, com seus uniformes, carteirinha, posturas pessoais e coletivas até então inéditas da parte de negros, esmerada disciplina de organização e mobilização, reivindicações consistentes e exigências abertas e diretas às autoridades públicas, e irradiação por incontáveis cidades do interior... E que alcançaria quase todas as regiões brasileiras, com volume incontrolável de representações (os dirigentes da FNB alardeavam a adesão de mais de 200.000 filiados).[2]

Rupturas vieram, também, da infinidade de clubes e associações negras criadas em toda parte do país, com variadas motivações, de acordo com especificidades e possibilidades locais. Como exemplos: o Floresta Aurora, o Marcílio Dias, o satélite Prontidão, em Porto Alegre, Rio Grande do Sul; o Aristocrata Club em São Paulo; o Renascença Club no Rio de Janeiro; o Clube Palmares em Volta Redonda, Rio de Janeiro; o Chico Rei Clube em Poços de Caldas e o Minas Clube em Além Paraíba, ambos em Minas Gerais... Em torno desses espaços associativos, assim como das Irmandades Religiosas Católicas (N. Sª do Rosário, São Benedito, Santo Elesbão, Santa Efigênia), aglutinavam-se famílias negras, criando mecanismos de assistência mútua e outras formas de fortalecimento social e econômico. 

Não é outro também o sentido da ampla e, até agora irreversível, instituição das manifestações culturais de matrizes africanas. Às vezes, através de confrontação direta, como os afoxés nascidos dos candomblés da Bahia, cujo momento decisivo de afirmação foi contra a repressão policial (por isso a tradição do Afoxé Filhos de Gandhi de desfilarem apenas homens); como o Passo (do qual surgiu o Frevo) em Pernambuco; da Capoeira no Rio de Janeiro, Bahia e outras regiões... Outras vezes, como o Samba carioca, que foi se insinuando, resistindo (aqui e ali obrigado a enfrentamentos também), até conquistar certa institucionalidade, e galgar a importância que tem hoje.

Pois em cada um desses processos sociais há muito mais do que a contabilidade de êxitos dos quais se ufana, com razão, o Movimento Negro. Há  histórias de vidas, de abnegação, de tenacidade e talento, de homens e mulheres inabaláveis em sua dignidade e determinação. São muitos os motivos de justificado orgulho para todos os que assumem um nível elevado de consciência social do que significa ser negro no Brasil. ZUMBI é a essência que anima esse estado de consciência.

Relembrando Palmares: para aqueles que viviam na Serra da Barriga não bastava a existência do Quilombo. Este crescia, se desenvolvia, e se complexificavam suas formas de organização interna (da produção, de circulação de idéias, das relações de poder, etc), transformando-o política e institucionalmente, gerando novas e desafiantes perspectivas, inclusive nas relações com os fazendeiros e autoridades da região. Em nossa visão de hoje podemos pensar que se tornaria intolerável, por ser uma negação radical do sistema dominante. Por isso a tensão foi se agudizando e, com o incremento das ações militares, ou se rendiam ou negociavam (como teria feito Ganga Zumba), ou se levava o enfrentamento até as últimas conseqüências, como teriam deliberado Zumbi, e a maioria.[3]

Hoje, não se pode julgar se conseguiram dar conta dos desafios que tinham pela frente. O que é desafio para nós, pode não ter sido para eles. Seria uma grosseira distorção do papel de analista afirmar a veracidade da sua formulação de problemas e soluções para situações históricas de um outro tempo tão distante. O que se pode fazer é "criar" cenários, especular sobre possibilidades, contando ao máximo com dados fornecidos pelas pesquisas, tentando se aproximar da “verdade” histórica. Mas não se deve ceder à ilusão de saber o que aconteceu; já que não existem fatos, só existem versões.

E essa regra deve valer para esse momento. Temos nos servido de projeções sobre o passado e de idealizações do futuro para fortalecermos as nossas lutas no presente. Parece que é um vício dos homens ao longo dos tempos, serem governados pelos mortos e pelos sonhos. Até que se deparam com situações cujas soluções exijam criação. É evidente que nada se cria a partir do nada. O passado tem um peso e os sonhos também. Com certeza, ainda não é hora de enterrar ZUMBI. Mas há um momento em que as condições gritam: é agora!!!

Tenho pensado que (no que toca à questão racial, e mais do que isso), este momento está se apresentando para os militantes do Movimento Negro, e para todos que pretendem vivenciar a construção de uma nação e sociedade mais coerentes e consistentes com o passado e os sonhos da grande maioria do nosso povo.

Muito se tem repetido que a luta contra o racismo se encontra num impasse, se atribuindo (no mínimo) a maior parte da responsabilidade a erros e debilidades do Movimento Negro. Muitos militantes acreditam nisso, se mortificam ou se acusam uns aos outros, aferrados às suas razões. É verdade que há problemas, falhas, debilidades, no conjunto do Movimento Negro, e isso afeta a progressão da luta contra o racismo. Mas será que aí se fecha a questão?

A meu ver é aí que começa. Um nó é o costume de refletir sobre o racismo como um ente quase absoluto, um supersujeito, para quem, muitas vezes, se volta o melhor da energia militante. Estrategicamente, é crucial se estar atento ao poder do racismo, sem perder o foco na ampliação e fortalecimento do próprio potencial – somos ou não somos os sujeitos da transformação?

Outro nó tem sido a ênfase exagerada nas diferentes visões de como fazer e do que alcançar como militantes negros. É sintoma de imaturidade permitir que a diversidade, ao invés de enriquecer e adensar o movimento social, prejudique momentos fundamentais de unidade e eficácia, dificultando o enfrentamento das desigualdades raciais e a conquista da democracia e da justiça social.

Sobre o impasse, pode-se pensar no que teria ocorrido em Palmares, que não conseguiu crescer e se desenvolver o suficiente para derrotar o sistema escravista. Ou o que tanto se fala dos militantes negros das décadas de 30 e 40 que, segundo avaliação de Florestan Fernandes, por exemplo, viram se esvair seus esforços de valorização e integração social, graças à insensibilidade, à falta de solidariedade do que aquele autor e companheiro chamou "sociedade inclusiva".[4]

   

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