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Aos trancos e barrancos o Movimento Negro vem cumprindo um
papel extraordinário: obrigando a sociedade brasileira a se pensar para além
dos valores inculcados ao longo de séculos de escravismo, de espoliação
econômica e opressão política, e do colonialismo cultural que, ainda hoje, vem
"fazendo cabeças".
Aos poucos vai ficando mais evidente, tanto no terreno
da instituição política quanto para a comunidade de estudiosos dos problemas
brasileiros contemporâneos, a envergadura dos processos através dos quais o
Movimento Negro emerge na cena histórica rompendo com uma questão sensível nos
sonhos das elites brasileiras: a construção de uma nação etnicamente homogênea,
em que a superioridade (cultural e biológica) branca diluiria a "mancha
negra".[1]
Esse tipo de idealização foi rompido pelo fenômeno da
Frente Negra Brasileira que, entre 1931 e 1937, impactou São Paulo – vasta
militância, ostensiva, com seus uniformes, carteirinha, posturas pessoais e
coletivas até então inéditas da parte de negros, esmerada disciplina de
organização e mobilização, reivindicações consistentes e exigências abertas e
diretas às autoridades públicas, e irradiação por incontáveis cidades do
interior... E que alcançaria quase todas as regiões brasileiras, com volume
incontrolável de representações (os dirigentes da FNB alardeavam a adesão de
mais de 200.000 filiados).[2]
Rupturas vieram, também, da infinidade de clubes e
associações negras criadas em toda parte do país, com variadas motivações, de
acordo com especificidades e possibilidades locais. Como exemplos: o Floresta
Aurora, o Marcílio Dias, o satélite Prontidão, em Porto Alegre, Rio Grande do
Sul; o Aristocrata Club em São Paulo; o Renascença Club no Rio de Janeiro; o
Clube Palmares em Volta Redonda, Rio de Janeiro; o Chico Rei Clube em Poços de
Caldas e o Minas Clube em Além Paraíba, ambos em Minas Gerais... Em torno
desses espaços associativos, assim como das Irmandades Religiosas Católicas (N.
Sª do Rosário, São Benedito, Santo Elesbão, Santa Efigênia), aglutinavam-se
famílias negras, criando mecanismos de assistência mútua e outras formas de
fortalecimento social e econômico.
Não é outro também o sentido da ampla e, até agora
irreversível, instituição das manifestações culturais de matrizes africanas. Às
vezes, através de confrontação direta, como os afoxés nascidos dos candomblés
da Bahia, cujo momento decisivo de afirmação foi contra a repressão policial
(por isso a tradição do Afoxé Filhos de Gandhi de desfilarem apenas homens);
como o Passo (do qual surgiu o Frevo) em Pernambuco; da Capoeira no Rio de
Janeiro, Bahia e outras regiões... Outras vezes, como o Samba carioca, que foi
se insinuando, resistindo (aqui e ali obrigado a enfrentamentos também), até
conquistar certa institucionalidade, e galgar a importância que tem hoje.
Pois em cada um desses processos sociais há muito mais
do que a contabilidade de êxitos dos quais se ufana, com razão, o Movimento
Negro. Há histórias de vidas, de
abnegação, de tenacidade e talento, de homens e mulheres inabaláveis em sua
dignidade e determinação. São muitos os motivos de justificado orgulho para
todos os que assumem um nível elevado de consciência social do que significa
ser negro no Brasil. ZUMBI é a essência que anima esse estado de consciência.
Relembrando Palmares: para aqueles que viviam na Serra
da Barriga não bastava a existência do Quilombo. Este crescia, se desenvolvia,
e se complexificavam suas formas de organização interna (da produção, de
circulação de idéias, das relações de poder, etc), transformando-o política e
institucionalmente, gerando novas e desafiantes perspectivas, inclusive nas relações
com os fazendeiros e autoridades da região. Em nossa visão de hoje podemos
pensar que se tornaria intolerável, por ser uma negação radical do sistema
dominante. Por isso a tensão foi se agudizando e, com o incremento das ações
militares, ou se rendiam ou negociavam (como teria feito Ganga Zumba), ou se
levava o enfrentamento até as últimas conseqüências, como teriam deliberado
Zumbi, e a maioria.[3]
Hoje, não se pode julgar se conseguiram dar conta dos
desafios que tinham pela frente. O que é desafio para nós, pode não ter sido
para eles. Seria uma grosseira distorção do papel de analista afirmar a
veracidade da sua formulação de problemas e soluções para situações históricas
de um outro tempo tão distante. O que se pode fazer é "criar" cenários,
especular sobre possibilidades, contando ao máximo com dados fornecidos pelas
pesquisas, tentando se aproximar da “verdade” histórica. Mas não se deve ceder
à ilusão de saber o que aconteceu; já
que não existem fatos, só existem versões.
E essa regra deve valer para esse momento. Temos nos
servido de projeções sobre o passado e de idealizações do futuro para
fortalecermos as nossas lutas no presente. Parece que é um vício dos homens ao
longo dos tempos, serem governados pelos mortos e pelos sonhos. Até que se
deparam com situações cujas soluções exijam criação. É evidente que nada se
cria a partir do nada. O passado tem um peso e os sonhos também. Com certeza,
ainda não é hora de enterrar ZUMBI. Mas há um momento em que as condições
gritam: é agora!!!
Tenho pensado que (no que toca à questão racial, e
mais do que isso), este momento está se apresentando para os militantes do
Movimento Negro, e para todos que pretendem vivenciar a construção de uma nação
e sociedade mais coerentes e consistentes com o passado e os sonhos da grande
maioria do nosso povo.
Muito se tem repetido que a luta contra o racismo se
encontra num impasse, se atribuindo (no mínimo) a maior parte da
responsabilidade a erros e debilidades do Movimento Negro. Muitos militantes
acreditam nisso, se mortificam ou se acusam uns aos outros, aferrados às suas
razões. É verdade que há problemas, falhas, debilidades, no conjunto do
Movimento Negro, e isso afeta a progressão da luta contra o racismo. Mas será
que aí se fecha a questão?
A meu ver é aí que começa. Um nó é o costume de
refletir sobre o racismo como um ente quase absoluto, um supersujeito, para
quem, muitas vezes, se volta o melhor da energia militante. Estrategicamente, é
crucial se estar atento ao poder do racismo, sem perder o foco na ampliação e
fortalecimento do próprio potencial – somos ou não somos os sujeitos da
transformação?
Outro nó tem sido a ênfase exagerada nas diferentes
visões de como fazer e do que alcançar como militantes negros. É sintoma de
imaturidade permitir que a diversidade, ao invés de enriquecer e adensar o
movimento social, prejudique momentos fundamentais de unidade e eficácia,
dificultando o enfrentamento das desigualdades raciais e a conquista da
democracia e da justiça social.
Sobre o impasse, pode-se pensar no que teria ocorrido
em Palmares, que não conseguiu crescer e se desenvolver o suficiente para
derrotar o sistema escravista. Ou o que tanto se fala dos militantes negros das
décadas de 30 e 40 que, segundo avaliação de Florestan Fernandes, por exemplo,
viram se esvair seus esforços de valorização e integração social, graças à
insensibilidade, à falta de solidariedade do que aquele autor e companheiro
chamou "sociedade inclusiva".[4]
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