Até aqui nos ajudou Zumbi...

 

Amauri Mendes Pereira
Especialista em História
da África, Mestre em Educação-UERJ e Doutor em Ciências Sociais - UERJ

 

Parte II


Concordando ou não com tais avaliações, eu penso que elas não podem dizer o que é necessário fazer agora. Se esses dois momentos são importantes, o são exatamente porque marcaram o seu tempo. Representam pontos culminantes de processos históricos que têm muito mais a ver com as mentalidades, os nervos e o sangue dos homens e mulheres que os produziram e viveram, do que com qualquer análise que se possa fazer a seu respeito.

 

Houve uma palavra de ordem que galvanizou o povo sul-africano nos estertores do apartheid (e que Sueli Carneiro repercutiu de maneira oportuna entre a militância negra brasileira): “Estamos por nossa conta”! Todos e todas que percebam o racismo como um problema crucial na sociedade brasileira NÃO PODEMOS ESPERAR SOLUÇÕES DE QUEM QUER QUE SEJA: o que se fizer desse momento é o que será.

Ações Afirmativas e cotas, a agenda básica que está posta, são táticas para correção emergencial de injustiças. Servem ao que servem e estão abertas – quem se arroga a última palavra? – reflexões sobre sua justeza histórica e conseqüências para o futuro da nação e da sociedade. Para a militância negra não passam de instrumentos, por sinal, brandidos desde longe.[5] O que importa principalmente é o que precisa ir além das cotas. De maneiras insondáveis a grande maioria do povo brasileiro, talvez especialmente a maioria negra, vem mostrando que está (como poetou Lenine, o nosso, pernambucano) mais além!! Há uma nação se construindo e muitos desafios. Para as elites intelectuais, cujas interpretações sobre o desenvolvimento da sociedade brasileira costumam ser as mais influentes, parece que – com raras exceções – estão emparedados contra ou a favor das cotas, ou em silêncio e omissão. Para a militância negra o desafio é compreender-se como um sinal e sintoma das transformações que estão acontecendo. Ser negro e militante nesse momento é recusar ser problema, e, simultaneamente assumir a responsabilidade de querer mais do que atenuar o racismo. E isso, deve-se dizer para “eles”, os que continuam enxergando um “problema negro” ao invés de uma questão racial, esta sim, fator intrínseco de grandes problemas nacionais.

Ao longo do século XX o pensamento social brasileiro (as interpretações sobre os dilemas da sociedade) foi omisso, indiferente, inconsistente, perante a questão racial. Ao mesmo tempo, adquiria consistência e se fortalecia o movimento social anti-racista (do qual o movimento negro é o motor e ponta-de-lança), até ser capaz de por a questão racial na agenda política nacional. A falta de sintonia entre o campo do poder racial (majoritariamente “branco”, ainda que não se veja dessa maneira; e aqueles, majoritariamente “negros”, racializados e vistos como “o problema”), gerou um contencioso explosivo que, hoje, aterroriza as idealizações da identidade nacional. Estar à altura de ZUMBI exige dizer que ele cumpriu o seu papel e agora nos cabe cumprir o nosso. Os parâmetros são a  legitimidade histórica da luta – e esse é o limite do peso do passado; e a urgência da efetiva construção, nas mentes e corações, dos valores da coragem, da justiça, da solidariedade, da democracia – trazidos da matéria dos nossos sonhos.

ZUMBI, Palmares, Chica da Silva (devidamente depurada dos estereótipos do filme), Chico Rei, Luiza Mahin, Luiz Gama, João Cândido, Seu Leite, e tantos outros e outras, mais do que história negra, são emblemas da história do Brasil. E serão mais gloriosos quanto mais sejam superados a raça e o racismo e se inaugure a terra prometida da Igualdade-liberdade-Fraternidade.

O que cada um de nós está fazendo em suas famílias, nas rodas de amigos nos bares e esquinas, nas escolas, nos locais de trabalho, nos espaços de militância, para enaltecer a história que estamos produzindo e para galgar um futuro sem discriminação e desigualdades raciais e sociais? O quanto estamos impregnados de vigilância com nossos próprios pensamentos e atos e com as "derrapadas racistas" do em torno? O quanto de força e vitalidade somos capazes de levar às entidades negras e a todas as iniciativas, em todo lugar, para se discutir franca e fraternalmente a questão racial e construir uma nova “Cultura de Consciência Negra”?[6] Pois é isso o que está valendo.

Que nossas mentalidades se ocupem de pensar e agir, mais do que de comer e vestir.

Nós somos o sangue e os nervos do nosso tempo.

Sejamos.

Novembro de 2006


[1] Não é aqui o lugar de se estender sobre o racismo "estrutural" que consistia na própria essência do pensamento das elites brasileiras até os meados do século XX, e do qual ainda hoje não estão livres. Estudo recente e bem objetivo a respeito pode-se encontrar em MUNANGA, Kabengele. Rediscutindo a mestiçagem no Brasil. Vozes. Petrópolis. 1999. Preciosos os trabalhos de Giralda Seyferth especificamente  sobre a imigração como a primeira grande política pública da República e seus propósitos “eugênicos”.
 

[2 Está por ser feita uma História do Movimento Negro Brasileiro. Flavio Gomes (Negros e Política, Jorge Zahar, 2005), sinalizou agudamente para o silêncio historiográfico sobre essa trajetória de lutas pós-abolição. São incontáveis e as mais variadas, as iniciativas no seio da população negra, em todas as regiões brasileiras. É recente e ainda escasso, no entanto, o interesse acadêmico sobre esses eventos. Uma preciosidade é o livro ...E disse o velho militante José Correia Leite. É relato e análise feitos por quem ajudou a produzir tal história – um dos mais importantes nomes entre os militantes do M.N. ao longo do século XX. Editado por Cuti, poeta e militante negro, e publicado pela Secretaria de Cultura do Município de São Paulo, em 1992.
 

[3] Importante referir que esse tipo de análise se tornou possível a partir da descoberta de documentos da época na Torre do Tombo, em Portugal. O primeiro a ter acesso foi Décio Freitas, que mesmo não sendo à época um historiador de formação, produziu um clássico: Palmares: a Guerra dos Escravos. Muitas vezes re-editado, ampliado e revisado. O que eu tenho é da Ed. Mercado Aberto. Porto Alegre. 5ª edição. 1984.
 

[4] Esta interpretação se encontra na segunda parte do livro a Integração do negro à sociedade de classes, um verdadeiro clássico da literatura sobre relações raciais no Brasil.
 

[5] Trabalhos de pesquisa sobre a História e Cultura Afro-Brasileira, particularmente sua dimensão política, têm revelado documentos que comprovam essa afirmação. De imediato lembro da tese de Joselina da Silva  - ... – e da riqueza da documentação que ela traz a respeito desse tipo de perspectiva presente em declarações e manifestos de militantes e entidades negras nos anos 40 e 50.
 

[6] Cultura de Consciência Negra, para mim, resulta da superação do culturalismo (a folclorização e ingenuidade no seio da “cultura”), pela dinâmica das idéias e ações, a partir dos referenciais históricos, simbólicos, estéticos, de matrizes africanas, “temperados” na vivência afro-brasileira.


   

página 1