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Houve uma palavra de ordem que galvanizou o povo
sul-africano nos estertores do apartheid (e
que Sueli Carneiro repercutiu de maneira oportuna entre a militância negra
brasileira): “Estamos por nossa conta”!
Todos e todas que percebam o racismo como um problema crucial na sociedade
brasileira NÃO PODEMOS ESPERAR SOLUÇÕES DE QUEM QUER QUE SEJA: o que se fizer
desse momento é o que será.
Ações Afirmativas e cotas, a agenda básica que está
posta, são táticas para correção emergencial de injustiças. Servem ao que
servem e estão abertas – quem se arroga a última palavra? – reflexões sobre sua
justeza histórica e conseqüências para o futuro da nação e da sociedade. Para a
militância negra não passam de instrumentos, por sinal, brandidos desde longe.[5]
O que importa principalmente é o que precisa ir além das cotas. De maneiras
insondáveis a grande maioria do povo brasileiro, talvez especialmente a maioria
negra, vem mostrando que está (como poetou Lenine, o nosso, pernambucano) mais além!! Há uma nação se construindo
e muitos desafios. Para as elites intelectuais, cujas interpretações sobre o
desenvolvimento da sociedade brasileira costumam ser as mais influentes, parece
que – com raras exceções – estão emparedados contra ou a favor das cotas, ou em
silêncio e omissão. Para a militância negra o desafio é compreender-se como um
sinal e sintoma das transformações que estão acontecendo. Ser negro e militante
nesse momento é recusar ser problema, e, simultaneamente assumir a
responsabilidade de querer mais do que atenuar o racismo. E isso, deve-se dizer
para “eles”, os que continuam enxergando um “problema negro” ao invés de uma
questão racial, esta sim, fator intrínseco de grandes problemas nacionais.
Ao longo do século XX o pensamento social brasileiro
(as interpretações sobre os dilemas da sociedade) foi omisso, indiferente,
inconsistente, perante a questão racial. Ao mesmo tempo, adquiria consistência
e se fortalecia o movimento social anti-racista (do qual o movimento negro é o
motor e ponta-de-lança), até ser capaz de por a questão racial na agenda
política nacional. A falta de sintonia entre o campo do poder racial
(majoritariamente “branco”, ainda que não se veja dessa maneira; e aqueles,
majoritariamente “negros”, racializados e vistos como “o problema”), gerou um
contencioso explosivo que, hoje, aterroriza as idealizações da identidade
nacional. Estar à altura de ZUMBI exige dizer que ele cumpriu o seu papel e agora
nos cabe cumprir o nosso. Os parâmetros são a
legitimidade histórica da luta – e esse é o limite do peso do passado; e
a urgência da efetiva construção, nas mentes e corações, dos valores da
coragem, da justiça, da solidariedade, da democracia – trazidos da matéria dos
nossos sonhos.
ZUMBI, Palmares, Chica da Silva (devidamente depurada
dos estereótipos do filme), Chico Rei, Luiza Mahin, Luiz Gama, João Cândido,
Seu Leite, e tantos outros e outras, mais do que história negra, são emblemas
da história do Brasil. E serão mais gloriosos quanto mais sejam superados a
raça e o racismo e se inaugure a terra prometida da
Igualdade-liberdade-Fraternidade.
O que cada um de nós está fazendo em suas famílias,
nas rodas de amigos nos bares e esquinas, nas escolas, nos locais de trabalho,
nos espaços de militância, para enaltecer a história que estamos produzindo e
para galgar um futuro sem discriminação e desigualdades raciais e sociais? O
quanto estamos impregnados de vigilância com nossos próprios pensamentos e atos
e com as "derrapadas racistas" do em torno? O quanto de força e
vitalidade somos capazes de levar às entidades negras e a todas as iniciativas,
em todo lugar, para se discutir franca e fraternalmente a questão racial e
construir uma nova “Cultura de Consciência Negra”?[6]
Pois é isso o que está valendo.
Que nossas mentalidades se ocupem de pensar e agir,
mais do que de comer e vestir.
Nós somos o sangue e os nervos do nosso tempo.
Sejamos.
Novembro de 2006
[1] Não é aqui o lugar de se estender sobre o
racismo "estrutural" que consistia na própria essência do pensamento
das elites brasileiras até os meados do século XX, e do qual ainda hoje não
estão livres. Estudo recente e bem objetivo a respeito pode-se encontrar em
MUNANGA, Kabengele. Rediscutindo a
mestiçagem no Brasil. Vozes. Petrópolis. 1999. Preciosos os trabalhos de
Giralda Seyferth especificamente sobre
a imigração como a primeira grande política pública da República e seus
propósitos “eugênicos”.
[2 Está por ser feita uma História do Movimento
Negro Brasileiro. Flavio Gomes (Negros e
Política, Jorge Zahar, 2005), sinalizou agudamente para o silêncio
historiográfico sobre essa trajetória de lutas pós-abolição. São incontáveis e
as mais variadas, as iniciativas no seio da população negra, em todas as
regiões brasileiras. É recente e ainda escasso, no entanto, o interesse
acadêmico sobre esses eventos. Uma preciosidade é o livro ...E disse o velho militante José Correia
Leite. É relato e análise feitos por quem ajudou a produzir tal história –
um dos mais importantes nomes entre os militantes do M.N. ao longo do século
XX. Editado por Cuti, poeta e militante negro, e publicado pela Secretaria de
Cultura do Município de São Paulo, em 1992.
[3] Importante referir que esse tipo de análise se
tornou possível a partir da descoberta de documentos da época na Torre do
Tombo, em Portugal. O primeiro a ter acesso foi Décio Freitas, que mesmo não
sendo à época um historiador de formação, produziu um clássico: Palmares: a Guerra dos Escravos. Muitas
vezes re-editado, ampliado e revisado. O que eu tenho é da Ed. Mercado Aberto.
Porto Alegre. 5ª edição. 1984.
[4] Esta interpretação se encontra na segunda
parte do livro a Integração do negro à
sociedade de classes, um verdadeiro clássico da literatura sobre relações
raciais no Brasil.
[5] Trabalhos de pesquisa sobre a História e
Cultura Afro-Brasileira, particularmente sua dimensão política, têm revelado
documentos que comprovam essa afirmação. De imediato lembro da tese de Joselina
da Silva - ... – e da riqueza da
documentação que ela traz a respeito desse tipo de perspectiva presente em
declarações e manifestos de militantes e entidades negras nos anos 40 e 50.
[6] Cultura de Consciência Negra, para mim,
resulta da superação do culturalismo (a folclorização e ingenuidade no seio da
“cultura”), pela dinâmica das idéias e ações, a partir dos referenciais
históricos, simbólicos, estéticos, de matrizes africanas, “temperados” na
vivência afro-brasileira.
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