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– Sim, sem qualquer
dúvida. Creio que uma leitura mais atenta de vários textos de escritores negros
ao longo da literatura brasileira nos fornece essa resposta. Alguns conseguiram
criar um discurso literário marcadamente opositor à mentalidade da época. Por exemplo, Caldas Barbosa (1738-1800),
famoso por seus lundus, ainda no Brasil Colônia, tenta responder, por meio de
versos, aos vários insultos que recebia, como o de ser descendente da “nojenta
prole da rainha ginga”, dirigido contra ele pelo poeta português Bocage
(1765-1805). Poetas, romancistas como Luiz Gama, Cruz e Souza, Lima Barreto, Lino
Guedes, Solano Trindade e muitos dos escritores contemporâneos,
incansavelmente, produzem obras que
auxiliam e que valem mesmo como discurso contra o racismo.
2 - Quais são os autores ou obras brasileiras que a
senhora destacaria em função da presença da discussão racial ou outras
manifestações de luta da população negra? E que autores foram esquecidos por
nossa literatura?
– O primeiro que eu
destacaria seria Luiz Gama (1830-1882). Com seus poemas satíricos, aponta na
sociedade da época a pretensão racista de se constituir e de se apresentar como
uma sociedade branca. Cruz e Souza (1861-1898), com a sua negritude angustiada.
O grande poeta simbolista do Brasil morre em estado total de miséria, esquecido
pela crítica da época. E quando recuperado, é apontado como um poeta que tenta
escapar de sua condição étnica –
conclusão tirada a partir de certas metáforas que Cruz e Souza utilizava nas
construções de seus versos – . Criações importantes do poeta foram deixadas no
esquecimento, ou melhor, no desconhecimento, como “Núbia” e o poema em prosa
“Emparedado”, em que a voz autoral negra do poeta se faz ouvir. Referência
maior talvez seja a de Lima Barreto (1881-1922). Desprezado por muito tempo
pela crítica literária, mas nas últimas décadas já se encontra plenamente
recuperado pelas pesquisas acadêmicas. Lima Barreto segundo o seu biógrafo
Regis de Morais, denominava o espaço familiar em que vivia como “Vila
Quilombo”. Ao meu ver, ele é o escritor que mais, contundentemente, coloca o
dedo na ferida do racismo brasileiro. Sua obra, notadamente em Recordações do Escrivão
Isaias Caminha e em Clara dos Anjos, proporciona várias discussões sobre os modos das relações raciais da sociedade
brasileira. Em 1903, em seu Diário Íntimo, Lima Barreto relatava o desejo de escrever sobre a escravidão
no Brasil, e a influência desse processo na nacionalidade brasileira. Em 1905,
o escritor volta a registrar a mesma idéia. Queria escrever um romance que
falasse da vida e do trabalho dos negros em uma fazenda. E não podemos esquecer a escritora
maranhense, Maria Firmina dos Reis, (1825-1917) também muito pouco conhecida.
Os compêndios tradicionais da historiografia da literatura brasileira não citam
a escritora. Há, entretanto estudos que apontam Maria Firmina como a autora do
primeiro romance abolicionista, Úrsula, escrito por uma mulher.
Registros comprovam a presença dela em jornais maranhenses publicando poesias,
contos, crônicas e também como compositora de um hino para a abolição da
escravatura, segundo informações do pesquisador de literatura afro-brasileira,
Profº Eduardo de Assis da UFMG.
3 - Ao longo do
processo histórico e social de constituição da nossa sociedade, em muitas
áreas, o negro foi invisibilizado. A senhora percebe este processo de
invisibilidade do negro nas obras de Literatura Brasileira, assim como na área acadêmica?
Como isso acontece?
– Se a pergunta for
sobre o negro como personagem, eu me arriscaria a dizer que nesse sentido não
pesa uma invisibilidade sobre o negro, mas sim estereotipia. A literatura
brasileira está repleta de personagens negras, tanto no verso, como na prosa. O
que há é uma estereotipia do negro nos textos literários. Gregório de Matos
(1623-1696) já compõe uma representação da mulher africana escravizada em seus
poemas. De seus versos afloram o desprezo pelos mestiços e o apetite sexual que
os portugueses tinham pelas mulatas. A literatura brasileira segue ao longo do
tempo difundindo estereótipos de negros em várias obras. Textos escritos no
passado e na contemporaneidade repetem, revitalizam, reatualizam estereótipos
tais como: o do negro Pai-João, o da Mãe-Preta, o do negro preguiçoso,
libidinoso, o do negro infantilizado, o da mulher negra boa de cama, o da
mulata fogosa, permissiva, etc, etc. É só atentarmos para personagens
como: Pai Benedito, em Tronco do Ipê,
de José de Alencar (1829-1877), infantilizado pela incompetência lingüística
para articular a “língua de
branco”. O mesmo estereótipo aparece na
obra São Bernardo, de Graciliano Ramos (1892-1953). A personagem
Casemiro, aliás, uma retomada do estereótipo do escravo fiel, aparece retratada
como alguém possuidor de uma dificuldade de linguagem. Na narrativa, se lê que
Casimiro mal articulava poucas palavras, e quando estava contente “aboiava”.
Rita Bahiana e Bertoleza, em O Cortiço de Aluisio de Azevedo,
(1857-1913) são imagens estereotipadas de mulheres negras. A primeira é
desenhada como a mulata em que tudo nela é sexualizado, do corpo à voz. A
segunda surge idiotizada, animalizada e “morre focinhando”, segundo a
narrativa. Por sua vez, Gabriela, Cravo e Canela, de Jorge Amado, (1912- 2001) representa uma mulher-natureza,
incapaz de entender qualquer norma social. Nessas e outras obras da literatura
brasileira, normalmente, as personagens negras surgem estereotipadas em
concordância com a maneira como o negro é percebido pela sociedade. Não há uma
ausência do negro e da cultura negra nos textos literários brasileiros. O que
existe é uma representação deprimente sobre nós negros. Nesse sentido, é
preciso pensar que a cultura dominante tem o poder de se representar e de representar
as outras culturas circundantes. Se pensarmos na invisibilidade do escritor
negro, temos de levantar ainda uma outra questão: a do processo de
branqueamento que certos indivíduos sofrem quando circulam; quando vivem em
espaços sociais tidos como “lugares de branco”. A instituição literária é lugar
de uma maioria branca e do sexo masculino. O processo de branqueamento que
Machado de Assis sofreu é exemplar. Desde a transfiguração de seus retratos,
como a pouca circulação dos textos em que Machado traz a questão da escravidão.
Por isso, esperamos com muita ansiedade um trabalho de pesquisa, feito por um
professor da Federal de Minas, já citado nessa entrevista. Esse estudo pretende
trazer textos jornalísticos de Machado assinado por pseudônimo, em que o
fundador da Academia Brasileira de Letras, se coloca diante da questão
escravocrata. Mas, os críticos
literários, até hoje, optam por apontar um Machado de Assis branco. Há uma gama
de escritores negros, e aqui eu estou incluindo os mestiços, que nós desconhecemos.
Castro Alves, Manuel da Silva Alvarenga, Gonçalves Dias, Teixeira e Souza –
autor do primeiro romance brasileiro –, Gonçalves Crespo, a poetisa Auta de
Souza, Paula Brito, poeta, contista, novelista, tradutor e iniciador do
movimento editorial no Brasil. Foi ele o primeiro editor de Machado de Assis.
Paula Brito e outros trazem uma ascendência africana ou indígena que raramente
aparece destacada. O modernista Mário de Andrade era mulato. Reafirmo que, se
procurarmos somente a afro-descedência, vários autores tiveram papel marcante
na literatura brasileira. Entretanto, quando pensamos na assunção dessa
ascendência, como um dado para a própria escrita, nomeamos aqueles/as, cuja
referência de datação se coloca a partir dos anos 20 até a contemporaneidade.
São escritores/as que trazem uma escrita profundamente marcada por suas
experiências de afro-descendente.
Começamos por Lino Guedes que assume uma “negritude” em seus textos,
mesmo que de forma lamentosa. Solano Lopes, por declamar: “negros que exploram
negros não são meus irmãos”. Abdias do Nascimento, pela contundência de seu
discurso poético em consonância com o seu discurso político. Adão Ventura, um
dos primeiros que conheci no exercício de poetar as dores do negro mineiro. Edimilson de Almeida, Ricardo Aleixo,
Waldemar Euzébio, poetas mineiros de agora. Carlos Assunção, Oswaldo de
Camargo, Paulo Colina, Cuti, Oliveira Silveira, Marcio Barbosa, Jamu Minka,
Oubi Inaê Kibuco, José Carlos Limeira, Landê Onawale, Semog, Salgado Mariano,
Nei Lopes, dentre outros, contistas, poetas e também estudiosos, pesquisadores
da cultura afro-brasileira. As mulheres, Geni Guimarães, Miriam Alves,
Esmeralda Ribeiro, Ana Cruz, Lia Vieira, Mãe Beata de Yemonjá, Ana Maria
Gonçalves, Cidinha da Silva, Maria Helena Vargas da Silveira e outras,
contistas, poetisas, romancistas, cronistas, nomes, que aparecerão com mais
vigor na cena literária, quando estudiosos atentos às diversidades da cultura e
da literatura brasileira se debruçarem sobre o novo. Uma geração novíssima vem
despontando em Cadernos Negros, cito alguns nomes: Andréia Lisboa
de Souza, Atiely Santos, Cristiane Sobral, Allan da Rosa. E não posso deixar de citar aqui o nome de
Carolina Maria de Jesus que, audaciosamente, a partir de restos de papel e
lixo, feriu a pretensão brasileira que procura fazer uma “assepsia” na
literatura, tanto do ponto de vista da temática, como no da linguagem.
4 - Quais as contribuições, na sua opinião, que a lei
10.639/2003 pode exercer no ensino de Literatura e Língua Portuguesa na
educação brasileira? Existe material didático com abordagem sobre essa questão
nesta área?
- A obrigatoriedade da temática “História e
Cultura Afro-Brasileira” no ensino fundamental e médio, oficial e particular,
sem dúvida alguma, abre um espaço de visibilidade aos aspectos poucos
difundidos das culturas africanas e afro-brasileira. É preciso forjar um reconhecimento de que as
culturas africanas, aqui aportadas, são formadoras da nacionalidade brasileira
e não meras contribuições. A presença do negro na cultura e no pensamento
nacional extrapola o espaço da arte relacionada ao canto, à dança, à culinária.
Creio que a lei 10.639/2003 proporciona, ou melhor, exige, que se tenha um
olhar mais diversificado sobre literatura brasileira. Há autores e textos
negros que são estudados, mas a partir de uma ótica euro-cêntrica. Procura-se,
inventa-se um lado branco para esses autores, assim como para os seus
trabalhos. Hoje, novos textos estão chegando ao mercado, e uma nova maneira de
lidar com esses textos está sendo levada, (ainda em pequena escala, reconheço]
aos professores. Uma escrita que trata dignamente o universo histórico,
cultural, político e religioso negro pede e força passagem. É lógico que o
mercado editorial e livreiro é impulsionado pelo lucro, pelo retorno e não pela
questão ideológica, mas no momento, abre-se uma brecha. As editoras estão hoje
mais propensas a investir em obras que desenvolvem temáticas relativas às
culturas africanas e afro-brasileiras. Quanto à divulgação dos textos afro-brasileiros
em grande escala, temos algumas novidades. Cadernos
Negros – melhores poemas foi
uma das obras selecionadas no
vestibular da UFBA, desse ano. Anteriormente, um livro de poesia de Edimilson
de Almeida e de Ricardo Aleixo, Roda do Mundo, apareceu incluído no
vestibular da UFMG. Ano passado, foi o livro de Waldemar Euzébio, Achados,
que foi incluído no vestibular da cidade de Montes Claros. E em 2008, o
vestibular da UFMG trará o romance Ponciá Vicêncio, de minha autoria. A presença de obras como essas no
vestibular, penso eu, ecoa os efeitos da 10.639. E quais as significações e quais efeitos da inclusão de um desses
livros no vestibular? Várias. Uma delas, sem dúvida, é a possibilidade de
ampliação do universo de leitores, entre alunos e professores.
5
- Qual a importância da Literatura
Africana na Língua Portuguesa e na Literatura Brasileira?
–
Creio que essa pergunta coloca dois níveis de questões distintas. Eu diria que
a importância das Literaturas Africanas na Língua Portuguesa estaria na possibilidade
de ampliação de sentidos da própria língua portuguesa. Os escritores africanos
que herdaram da colonização portuguesa, como nós herdamos, o idioma português,
fazem “maravilhas”, produzem novos efeitos estéticos com uma língua que, desde
que emigrou da metrópole para as suas antigas colônias, deixou de ser só a
língua de Camões. Transformou-se em uma língua que ganhou novos donos, novas
marcas culturais, diversificou-se, enriqueceu-se ao misturar-se com locais
falares, por onde ela aportava. Falamos, todos nós, uma mesma língua. Falamos e
não falamos... E do ponto de vista da
linguagem, nesse falar e não falar a mesma língua portuguesa reside, muitas
vezes, o fundamento estético dos textos africanos. A segunda pergunta, talvez
seja preciso inverter. Seria qual a importância da literatura brasileira nas
literaturas africanas? Interessante observar que os escritores brasileiros,
notadamente os modernistas, tiveram uma grande influência nas literaturas
africanas de língua portuguesa. Jorge Amado, Guimarães Rosa, o poeta Manuel
Bandeira e outros marcaram a escrita de escritores africanos. Há vários textos
africanos que dialogam com uma escrita brasileira. Só para exemplificar,
podemos pensar na escrita do angolano Luandino Vieira e do moçambicano Mia
Couto.
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