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Entrevista com Pablo Daválos

Qual é a situação das comunidades indígenas no Equador e que impacto esta situação tem espeificamente sobre o campo da educação superior do país?

A população indígena no Equador, reconhecida como tal, representa entre 50 e 60% dos habitantes. Contudo, independentemente desta porcentagem, toda a sociedade equatoriana é permeada por influências indígenas.

 

Pablo Daválos

Ex-Vice-ministro da Economia do Equador
e Professor de Macroeconomia e globalização da Universidade Católica do Equador

 

 

A estrutura familiar, a estrutura da linguagem e a maior parte dos hábitos e costumes, de alguma forma possuem raízes indígenas.  As raízes indígenas representam um eixo fundamental para os equatorianos, tanto quanto para os bolivianos ou para os peruanos. Neste sentido, é muito curioso o fato de que na universidade estatal, que é uma universidade gratuita e, além disso, uma universidade com um forte conteúdo social e progressista, na qual sempre foram difundidas as idéias mais libertárias, não haja estudantes indígenas.

 

 

Embora seja tão pequeno geograficamente, o Equador é um país muito diverso. Somente nos Vales da Serra existem cerca de quatorze povos indígenas diferentes (todos eles falam o quechua), enquanto na Amazônia existem cerca de dez nacionalidades diferentes. Ou seja, são povos que possuem um status de economia territorial, uma língua e uma cosmovisão próprias. Na costa equatoriana, existem cerca de seis povos ou nacionalidades indígenas. Portanto, vemos que existe no país uma mistura, um amálgama de diversidades realmente muito forte. Essas diversidades, porém, não são expressas na universidade. A universidade está construída e fundamentada no sentido napoleônico da educação superior, ou seja, um conhecimento dividido em faculdades, uma instituição da qual as pessoas se aproximam em busca de um status profissionalizante de incorporação à sociedade sob rígidos parâmetros estabelecidos sobre o que deveria ser entendido como ciência, conhecimento e definição do que se pode ou não se pode saber ou conhecer.
 

O Equador possuía e ainda possui um déficit muito grande de médicos rurais, um déficit na área da obstetrícia. Nas comunidades indígenas rurais, quem exerce as funções de cura, profilaxia, cuidado e ajuda obstetrícia são os shamãs ou curandeiras, embora as práticas de shamanismo e curanderia sejam proibidas por lei. O que significa dizer que o estado não se dispõe a outorgar atenção primária à saúde, mas proíbe o atendimento ancestral que existe desde longa data nessas mesmas comunidades. Existe uma forte perseguição às práticas ancestrais da medicina indígena, que muitas vezes são mais eficazes que as próprias práticas ocidentais. Neste sentido, é uma contradição e um paradoxo que a universidade pública, embora pareça tão democrática, tão progressista e universalista em seu discurso, não tenha aberto as portas para a população indígena.
 

E essa é uma questão muito característica da sociedade equatoriana. Uma sociedade racista, uma sociedade que, desde a administração étnica, tem construído e consolidado mecanismos de poder. Isto se expressa claramente em um personagem do século XVIII, cuja figura representa o início da Ilustração no Equador. Trata-se de um indígena, Manuechusi, que para poder entrar na universidade mudou seu nome para Eugenio Espejo, e não apenas mudou se nome mas também pintou o próprio rosto para parecer branco. Esta é uma metáfora da sociedade equatoriana. Todos somos indígenas, de uma ou outra forma. Não existem brancos. Existiram processos de mestiçagem, mas o traço indígena não ficou oculto no mestiço.
 

Entretanto, temos que nos disfarçar de pó de arroz para entrar na universidade. Precisamos mudar nossos nomes e nossos sobrenomes para entrar na universidade. Porque a universidade repete conhecimentos elaborados a partir dos centros hegemônicos do poder. Ela os repete, estendendo-os ao conjunto da sociedade sem ao menos procurar acondicioná-los ou adaptá-los à realidade existente. Uma repetição acrítica, do mais formal até o mais epistemológico, que se reflete na divisão de nossas universidades em faculdades: faculdade de ciências humanas; ciências técnicas; de direito; faculdade de medicina; faculdade de arquitetura; de ciências econômicas; de ciências sociais. Essa é uma compartimentação do conhecimento que nada tem a ver com a realidade de nossos países. Lembro-me que na década de 70, quando o pensamento marxista era dominante, afirmava-se, por exemplo, que no Equador existiam "modos de produção andinos". Era uma tentativa de encontrar um pouco de harmonia entre a teoria e a realidade, porque a realidade mostrava que existiam comunidades que nada tinham a ver com o sistema de produção capitalista. Mas era necessário incorporá-las à análise de alguma forma.
 

Quais são as principais resistências a este conhecimento hegemônico que orientava as diretrizes e rumos da educação universitária?
 

Em 1990 emerge o movimento indígena, com muita força e com demandas que não estavam presentes na agenda política e que nem ao mesmo faziam parte do horizonte de possibilidade dos partidos de esquerda. Os movimentos indígenas demandam um estado que acolha em seu seio as diversas nações que existem em um país, ou seja, uma unidade na diversidade, a partir da constituição de um estado plurinacional. O movimento indígena mostra que o projeto homogêneo de mestiçagem havia fracasso, propondo também o avanço em direção a uma sociedade intercultural, relativizando os conteúdos universais de nossa cultura em função do reconhecimento de conteúdos provenientes de outras culturas, tão válidas quanto a nossa. Estas demandas provocaram enormes resistências pelo fato do Equador ser um país extremamente racista que, como comentava anteriormente, teve seu poder construído sob os critérios de uma administração étnica. Estes enfrentamentos provocaram uma mudança no rumo da agenda política nacional e o fortalecimento de um ator político de grande importância: o movimento indígena.
 

Quais foram os motivos e os antecedentes que levaram à criação deste projeto chamado Universidade Intercultural?
 

A mediados dos anos 90 surge a necessidade de dar coerência àquilo que chamamos de "formação política das comunidades indígenas". A formação de líderes exigia uma sistematização dos conhecimentos provenientes do pensamento da esquerda, que necessariamente deveriam se articular às necessidades próprias. Foi assim que se originou uma iniciativa muito interessante de capacitação de mulheres indígenas: a escola de Dolores Cacuango, que leva o nome de uma lutadora indígena. A partir desta experiência de formação política que se desenvolveu principalmente nos povoados dos Vales da Serra, o seguinte questionamento se apresentou diante de nós: como fazer para tentar compreender o conhecimento indígena, salvá-lo e fomentar esse conhecimento e essas práticas ancestrais? Já para o ano de 1986 havíamos criado, juntamente com Luis Makas, o Instituto Científico de Culturas Indígenas que nos levou a pensar, no ano de 1996, em criar um centro de pesquisas, um centro de formação política.
 

Dessa forma foi nascendo a idéia da universidade. Por um lado procurávamos a profissionalização, que é a meta de toda universidade, mas fundamentalmente nosso objetivo era a conservação da cultura indígena e a formação político-cultural identitária dos dirigentes do movimento. Sabíamos que eles estavam do lado de fora do sistema educacional, porque para entrar no sistema educacional é preciso cumprir certos requisitos. Em primeiro lugar, é preciso ter um certificado de conclusão da educação secundária, com uma especialização que permitirá o acesso a uma determinada faculdade. Se você tem uma especialização em ciências sociais, não poderá estudar medicina; se a especialização for na área de humanas, não será possível estudar ciências politécnicas. Estávamos conscientes desta situação, mas ela nos parecia uma grande violência. Devemos considerar, por exemplo, que muitos dos povos indígenas são analfabetos e que implica em um esforço muito grande entender a lógica de culturas que não são gráficas e expressá-las por meio de signos gráficos para, a partir deles, alfabetizar. As estratégias de alfabetização existentes são estratégias de alfabetização em espanhol.
 

Impulsionados por estas preocupações, começamos um processo de discussão e debate que durou cerca de três anos, reunindo dirigentes basicamente vinculados à organização indígena, pessoas da escola de capacitação Cacuango e pessoas vinculadas a organizações dos povos indígenas de Los Valles. Juntamente com os intelectuais e líderes destas organizações, começamos a nos perguntar por que nossos companheiros não haviam chegado à universidade. Como dizia anteriormente, o principal obstáculo é o analfabetismo. Mas, além disso, também observamos que a universidade não oferece nenhum tipo de facilidade aos que estão alfabetizados. Nenhuma das matérias está em língua quechua, nenhum professor fala quechua e nenhum esquema conceitual tem qualquer mínima correlação com o quechua. Foi assim que, a partir do Instituto Científico de Culturas Indígenas, propusemo-nos a criar uma universidade indígena. Nossa proposta não visava tanto a profissionalização, que supõe um sentido moderno do conhecimento, mas sim a recuperação do saber das comunidades. A idéia de usar o conhecimento para "profissionalizar alguém" não existe no mundo indígena.

 

No entanto, muitos dos que participaram e participam deste projeto são provenientes de âmbitos acadêmicos e foram formados sob a lógica do conhecimento ocidental. Como é pensar e articular uma proposta coerente com formas de saber e estruturas de conhecimento completamente diferentes?

 

Para criar a universidade, nós, os companheiros que não éramos indígenas, tivemos de iniciar um processo de "desaprendizagem". Ou seja, todos aqueles marcos categoriais, lógicos e epistemológicos a partir dos quais havíamos nos formado e com os quais havíamos compreendido o conhecer e o saber, não serviam para conheceres e saberes diferentes. Trata-se, sem sombra de dúvida, de um processo muito difícil, inclusive mais difícil do que o próprio processo do aprender. No meu caso, pessoalmente, foi um processo muito denso que implicou em refazer-me várias perguntar sobre o que é o conhecimento, o que é a ciência, levando-me a questionar muitas coisas que para mim já estavam definidas. Em primeiro lugar, o conhecimento como validação universal e como única possibilidade humana.

Qual é a principal marca que diferencia o projeto da Universidade Indígena da universidade tradicional?
 

Enfrentamos a estes outros conhecimentos e saberes e o que definimos em primeiro lugar quando este processo foi estruturado foi que a universidade levaria o nome de "universidade" para que pudesse disputar os espaços de poder existentes, mas não se trataria, neste caso, de uma adequação de conhecimentos ocidentais em um papel timbrado com carimbo indígena. Ou seja, se estávamos criando uma universidade de direito indígena, não iríamos ensinar direito romano, direito civil, direito penal e direito processual, porque isso nada tem a ver com o direito indígena. Em seu lugar, ensinaríamos uma administração comunitária. O mesmo ocorre no âmbito das ciências sociais, da medicina, etc.
 

Dessa forma, o primeiro processo foi refletir sobre os campos epistemológicos do conhecimento. E estou falando de uma reflexão com dirigentes, muitos deles, sem educação primária ou um certificado de conhecimentos outorgado pelo estado, mas que tinham absolutamente claro o que era a epistemologia. Que tinham absolutamente clara a relação entre saber e poder. Estes dirigentes diziam: "queremos formar um espaço que tente recuperar nosso saber; e que o institucionalize. Não porque queremos institucionalizá-lo, mas porque precisamos defendê-lo. Porque nossos companheiros vão à cidade, transformam-se em mestiços, ingressam na universidade, retornam às comunidades e querem tentar impor seus conhecimentos, entrando em conflito com as lógicas ancestrais. Isso acontece no direito, na arquitetura, na economia, na medicina. Por isso, precisamos recuperar o conhecimento ancestral".
 

Durante estes processos de discussão, vocês enfrentaram algum tipo de dilemas ou contradições?
 

Como comentei, esta discussão durou muito tempo e não participaram dela os dirigentes dos povos indígenas da Amazônia, nem da costa. Neste sentido, o processo que estávamos construindo era um processo mais identificado com o quechua (cultura dos povos das serras) do que com outras nacionalidades. Mas só nos demos conta disso depois. Nessa época, não percebemos que estávamos outorgando ao quechua uma pretensão tão universalizante como a imposta pelo conhecimento ocidental. Além do quechua, havia outros povos que também possuíam outros conhecimentos, mas isso foi algo que só aprendemos depois.

 

 

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