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Entrevista com Pablo Daválos

 

Pablo Daválos

Ex-Vice-ministro da Economia do Equador
e Professor de Macroeconomia e globalização da Universidade Católica do Equador

 

Parte II


Como todas estas idéias se articularam aos processos de mobilização protagonizados pelo movimento indígena que durante esses anos estava em pleno processo de protesto e reivindicação
?

Após o avanço do debate, a questão seguinte foi como levar adiante todas essas idéias que vínhamos discutindo. E logo nos demos conta de que a operacionalização, que aparentava ser uma questão metodológica e teórica, era, fundamentalmente, um problema político.

 

Aquele era o momento de maior mobilização e força política do movimento indígena, o momento no qual nós poderíamos gerar esse conhecimento. Durante os momentos de mobilização era quando tínhamos a oportunidade de levar adiante a discussão envolvendo pessoas das próprias comunidades. Por isso, quando a luta declinava, esse processo também declinava.

 

 

Muitas vezes se destaca a necessidade de formação de quadros políticos no interior dos movimentos sociais, assim como nas organizações do campo sindical. Entretanto, não se costuma pensar na necessidade de construção do conhecimento por parte de dirigentes e militantes.
 

É justamente isso que ocorre. Percebemos esta potencialidade quando notamos que os fortes processos de mobilização e luta social coincidiam com profundas discussões teóricas entre dirigentes e militantes do movimento. A mobilização estimula tanto a interpelação ao poder estatal como a construção do conhecimento. Dependemos da mobilização para pensar em formas alternativas de conhecer e saber.

Não se trata de nos fecharmos em uma sala com quatro ou cinco dirigentes para discutir. Trata-se de um processo muito mais rico e complexo no qual os companheiros de base, que aparecem como porta-vozes dos diversos grupos do movimento, aproximam-se dos dirigentes para apresentar os principais problemas que vivem e em seguida os dirigentes se aproximam de nós para dar continuidade às discussões, regressando depois às comunidades para que os companheiros de base acrescentem os elementos necessários. Trata-se de um processo circular de criação de conhecimentos no qual a força política, capaz de disputar a ocupação dos espaços através de formas alternativas de saber, está na base da organização.

Podemos observar, por exemplo, que o ano de 1997 - ano de forte mobilização pela constituinte, de luta contra o modelo neoliberal e pela destituição do presidente - foi um ano de forte construção epistemológica.

 
O senhor mencionava que, desde seu início, a Universidade Indígena teve como objetivo a disputa de espaços de poder dentro do âmbito universitário. Como foi o processo de institucionalização da proposta?

 

No final da década de 90, formou-se o primeiro núcleo e as primeiras idéias deste espaço chamado Universidade Intercultural. Já tínhamos, desde o ano de 1979, uma importante experiência de educação intercultural, que havia se desenvolvido com altos e baixos. Mas logo após o final dos anos 90 começamos a questionar a necessidade de criar um espaço com status epistemológico próprio. Isso significou o enfrentamento de muitas rupturas, porque a primeira coisa que fizemos foi discutir o caráter profissionalizante da educação universitária. Não nos interessa profissionalizar. O que nos interessa é salvaguardar; o que nos interessa é conferir um status aos principais conhecimentos do pensamento indígena para, em função desse status, poder disputar o saber e o poder. Contudo, vimos que para disputar esses espaços precisamos, de uma ou de outra maneira, profissionalizar. O formato e a lei assim estabelecem.
 

Assim, foi necessário nos adequarmos ao formato e à lei vigentes. Não podíamos esperar que a lei fosse mudada para criar nossa universidade. Teria sido um processo muito longo. Talvez o projeto fosse possível e realizável dentro de um estado plurinacional, mas não existia na época nenhuma possibilidade de construção de um estado plurinacional, pelo menos a médio prazo. E foi assim que iniciamos, em um diálogo estratégico com a lei, o processo de criação da universidade que se prolongou durante os anos 1999, 2000 e 2001. Fomos adaptando os conhecimentos ancestrais ao que a lei universitária estabelece, pois nosso objetivo era requerer um reconhecimento oficial. Conseguimos o primeiro documento e chamamos o projeto de "Universidade Intercultural". E, como dizia, cometemos um erro ao tentar construir um espaço de sentido organizado exclusivamente a partir do quechua, sem envolver outras lógicas tais como o wao, as guaoanis e as de muitos outros povos e nações que são absolutamente diferentes das andinas. Mas, em todo caso, demos o primeiro passo. Quando os documentos estavam prontos, nós os entregamos ao Conselho de Universidades, que depois enviaria a proposta ao Congresso para sua ratificação e aprovação. Porém o Conselho negou nossa proposta.

 

Quais foram os principais aspectos da proposta rejeitados pelo Conselho de Universidades?

 

Estavam reunidos ali representantes das principais universidades do país. A apresentação de nossa proposta se deu em um contexto de privatização da educação superior, no qual emergiam universidades em profusão. Entretanto, enquanto eram aprovadas duas ou três universidades privadas por mês, a nossa foi rejeitada. Todas as demais universidades cumpriam ao pé da letra os requisitos estabelecidos pela lei. E era esse o nosso problema. Como poderíamos ser aprovados nos requisitos respeitando a noção inicial de uma universidade diferente? O Conselho passou a nos solicitar numerosas mudanças, alterações que significavam uma adaptação de nossos propósitos, que distorciam e eliminavam muitos dos principais preceitos do conhecimento indígena em função das formas tradicionais de saber. As faculdades, o conhecimento profissionalizante, a pesquisa de laboratório, o campus separado da sociedade, o aluno separado da sociedade, o professor separado da sociedade. Estas são características completamente alheias ao mundo indígena.
 

Nossa proposta aponta, em primeiro lugar, para o reconhecimento de que o conhecimento está dentro e não fora da comunidade. Portanto, a universidade não pode estar fora dela. Se o conhecimento nasce no comunitário, estrutura-se no comunitário e se define no comunitário, a universidade precisa estar na comunidade. Por definição. O campus não pode, inclusive fisicamente, estar longe dela. O professor e o aluno devem estar na comunidade. E a comunidade tem de participar.
 

Em segundo lugar, não há uma separação entre conhecimento social e conhecimento técnico. Não há conhecimento em humanidades e conhecimento tecnológico. O conhecimento é um só porque o homem é um só e a natureza é uma só. A partir desta perspectiva, a divisão em campos de conhecimento e em faculdades perde todo seu sentido. Em terceiro lugar, o reconhecimento precisa ser simbólico. Se depois de vários anos alguém conseguiu conhecer, aprender e ser capaz de criar novos conhecimentos a partir desses saberes, este é reconhecido pela comunidade simbolicamente. Este reconhecimento, na universidade tradicional, equivale a um reconhecimento jurídico. É um título que indica que "você sabe e, portanto, você tem direito de exercer esse conhecimento". O problema é que quando a universidade outorga um título a alguns, exclui muitos outros. Nas comunidades indígenas, isso é impossível. O título de aumauta ou de iacha é um título de reconhecimento social, mas não significa em absoluto que a comunidade não saiba, ou que seja ignorante.

 

Quais foram as principais adaptações que tiveram de realizar no projeto original, em função destas rejeições e questionamentos por parte do Conselho de Universidades?

 

Obviamente, todos esses aspectos foram seriamente questionados e criticados pelo Conselho de Universidades. Por isso, precisamos adaptar pouco a pouco a estrutura macro-curricular; foi necessário fazer uma compartimentação do conhecimento em: ciências da vida (que seria o que se conhece como medicina); ciências do espaço (o que se conhece como arquitetura); administração de justiça comunitária (o que se conhece como direito); educação intercultural (o que se conhece como pedagogia). Tivemos de fazer do conhecimento uma progressão do mais simples ao mais complexo, sem ter em conta que, às vezes, o processo é inverso. Foi assim que entramos em uma forte disputa com este Conselho de Universidades para conseguir a aprovação de nosso projeto.

 

O senhor mencionava anteriormente que a proposta foi apresentada em um momento de grande impulso à privatização da educação superior. Qual era a postura do Conselho de Universidades frente a este contexto e em que medida isso afetava as condições de negociação?

 

É preciso reconhecer que para o Conselho de Universidades o processo de aprovação da Universidade Intercultural também foi um desafio. Se não houvesse existido o nível de mobilização e politização dos movimentos indígenas, eles não teriam nos dado a menor atenção. Teriam arquivado nossa resposta. Mas como o processo tinha sua origem na mobilização, nós levamos a mobilização ao espaço do Conselho. E questionamos esse espaço em um contexto no qual a própria universidade pública estava tentando sobreviver diante da crescente privatização da educação superior e portanto precisava de aliados políticos. Um desses aliados era o movimento indígena. Neste sentido, não seria possível negar a possibilidade de destinação de recursos que, embora fossem escassos, seriam destinados à educação pública, rejeitando um projeto indígena. Dessa forma configurou-se uma conjuntura política muito interessante na qual o Conselho de Universidades nos recebeu e começou a discutir o projeto. Mas em outras circunstâncias, eles não teriam sequer nos recebido.
 

Este foi o primeiro passo de um processo de negociação que durou anos, com concessões de ambas as partes. O movimento indígena cedeu, mas o CONESUD também teve de ceder. Porque a universidade pública e o CONESUD, independentemente da privatização, não poderiam se dar ao luxo de perder um aliado político em um contexto de luta por maiores recursos para o setor. Negar o apoio aos indígenas teria significado a perda dos poucos recursos existentes. Eles não podiam dizer "não" de cara. Tampouco podiam dizer "sim", porque isto implicava questionar absolutamente toda a estrutura do conhecimento vigente. Por isso disseram: "vamos ver, vamos conversar".

Como culminou o processo de negociação?

Finalmente, conseguiu-se um texto mais coerente com o que o Conselho estabelecia, após uma discussão que durou mais de dois anos. O Conselho finalmente deu seu acordo e aprovou a proposta, mas somente a partir da incorporação das faculdades (que nós não chamamos de faculdades mas sim de "escolas para uma vida boa"). Desta forma, o projeto foi enviado ao Congresso para sua ratificação. Com este fato evidenciamos como o controle do conhecimento é eminentemente político, pois um projeto de criação de uma universidade precisa ser aprovado pelo Congresso. O controle político sobre o conhecimento é um requisito do poder.
 

Uma vez ultrapassada a primeira "peneira", supostamente acadêmica, chegamos ao sistema político que, novamente, negou nossa proposta. Isso foi em 2003. O movimento indígena levou este processo à suas bases para discutir o que estava acontecendo e para tomar alguma determinação. E foi a própria organização indígena quem assumiu a tarefa política de disputar a aprovação de suas instituições acadêmicas. Foi assim que a aprovação da Universidade Indígena ocupou seu lugar nas plataformas de mobilização política de 2004 e 2005, juntamente com a rejeição ao ALCA e à base de Manta.
 

Tínhamos um bloco de deputados que chegou ao seio do sistema político, onde ocorreu uma discussão muito interessante e que ainda não foi avaliada, sobre como o sistema político administrou esta proposta. Conseguimos a aprovação da Universidade Indígena, mas como universidade privada, não como universidade pública. Deste modo, o estado se libera da obrigação de implementar políticas de conhecimento intercultural. "O conhecimento das comunidades indígenas é das comunidades indígenas, trata-se de uma proposta privada e, portanto, é uma questão que não corresponde ao estado ou ao resto da sociedade".

Quais são os principais desafios para o futuro?

No futuro será necessário incorporar os saberes de outras culturas e, ainda, mudar o status da universidade privada para universidade pública, a fim de que a educação intercultural seja uma responsabilidade da sociedade e do estado.
 

Já temos dado passos importantes, porém ainda nos falta um longo caminho a ser trilhado. A luta pelo direito à educação dos povos indígenas é hoje um desafio fundamental para a construção de sociedades mais democráticas e igualitárias.

Por Florencia Stubrin (FLAPE – Brasil)
21 de julho de 2006

 

 

 

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