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Não é nosso o título mas o artigo, com todas as suas
implicações, é. E o escrevemos para mostrar como a opção imperial (no sentido
lato), e depois republicana, do Brasil, pelos imigrantes que viriam europeizar
e embranquecer a nação, não foi boa para todos os brasileiros.
Após a independência, depois de três séculos de imigração portuguesa, o Brasil
começou a receber outros contingentes de migrantes, tais como alemães, suíços e
poloneses. E esses imigrantes, além de começarem a substituir os escravos nas
lavouras, passaram também a ocupar, nos centros urbanos, espaços de trabalho
antes próprios dos negros, forros ou "ganhadores", restando a estes
as ocupações mais duras e de menor remuneração.
Com a abolição da escravatura iniciava-se a imigração italiana. E o migrante
dessa extração, tornava-se, principalmente em São Paulo, segundo uma
observação de Gilberto Freyre, no conhecido livro Ordem e progresso, "o
mais mimado, o mais protegido, o melhor amparado dos imigrantes europeus
acolhidos pelo Brasil". Ele era aquele que, como já ocorria na vizinha
Argentina, utopicamente alavancaria o processo de embranquecimento da população
brasileira. Assim, ele e outros europeus eram "admitidos de conformidade
com a necessidade de preservar e desenvolver o Brasil na composição de sua
ascendência européia", como claramente expresso no decreto-lei nº 7.967 de
1946.
Sem mais delongas, este artigo quer dizer que o Brasil
continua não apenas o "berço" mas o "berço dourado" dos
imigrantes e seus descendentes, através das gerações. É aqui que eles crescem,
estudam, progridem, tornam-se empresários bem sucedidos, políticos, ministros,
presidentes, professores universitários etc., gozando as benesses do que este
País tem de melhor.
São maioria, talvez, em universidades como a USP, onde os professores pretos e
pardos representam apenas 0,42% do corpo docente; ou da Universidade Federal do
Rio Grande do Sul, onde esses números caem para 0,23%; ou mesmo na carioca UERJ
onde os mestres afro-descendentes somam ínfimos 0,21% do total de professores -
consoante pesquisa do antropólogo José Jorge de Carvalho no livro Educação e
ações afirmativas, Inep/MEC, 2003.
Queremos dizer também que, com todo o direito que lhes é assegurado pela
Constituição, esses imigrantes e descendentes aqui constituem e freqüentam seus
clubes, associações, templos, restaurantes de "comidas típicas",
torcem pelos times de futebol de suas "colônias" , tudo isto, muito
justificadamente, afirmando sua identidade étnica, a solidariedade de seu grupo
e celebrando a importância de sua ancestralidade - já que, segundo o
tradicional vitalismo africano, "todo ser humano é elo de uma cadeia,
sustentado, acima, por sua ancestralidade e sustentando, abaixo de si, sua
descendência".
Quanto a nós afro-descendentes, cujos ancestrais foram, em sua esmagadora
maioria, trazidos à força para a terra brasileira - caçados como bichos, sim,
por europeus "tangomaus" e também, sabemos, por africanos
corrompidos, colaboracionistas; quanto a nós, temos de nosso a Negritude. Que é
a expressão de nossa originalidade, de nossa riqueza etnocultural e a
consciência de nosso significado intrínseco. Expressão essa que, como disse
Leopold Senghor, é o conjunto de valores civilizatórios do mundo negro e não
uma forma de racismo ou complexo de inferioridade. Ela não quer odiar, ignorar
ou menosprezar as outras civilizações e, sim, em conjunto com elas, construir
um mundo mais humano - disse o saudoso poeta senegalês.
A partir da consciência de nossa Negritude é que recusamos o "lugar de negro"
(exclusivamente no palco, na arena desportiva, na área de serviço etc) que nos
vem sendo imposto há séculos. Recusamos, porque queremos estar em todos os
lugares: nas páginas dos jornais, nos livros, e principalmente nas
universidades. Aprendendo e ensinando. Sem exclusões nem privilégios.
Por que o Brasil - e todos os "impérios" sabem disso - é o nosso
berço também.
http://www.afropress.com/colunista_2.asp?id=322
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