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Entrevista com
Nelson Maculan

Entrevista realizada por Renato Ferreira*

Através da sua participação no MEC, como o senhor avalia as políticas de ações afirmativas no âmbito nacional?

 

Nelson Maculan

Secretário de Educação do Estado do Rio de Janeiro

 

 

Nos últimos anos, há um processo grande de discussão na sociedade, que pretende corrigir os erros históricos em relação aos negros, indígenas e a população carente. Partindo dessas discussões surgiram as ações afirmativas, entre essas ações está a políticas de cotas. Todas essas ações, é claro, têm que ser temporárias, porque o dia em que tivermos uma sociedade igual e globalmente democrática, esse tipo de política não será mais necessária.

A discriminação racial, social e econômica, em alguns setores, não permite que as pessoas tenham acesso a educação, e não somente à educação, mais também, a saúde, trabalho e etc. No entanto, a problemática da educação é mais importante, de todos os problemas sociais, a educação é o que mais me preocupa e que, eu acredito, deve ter uma atenção especial.

Qual a maior dificuldade que o senhor vê nacionalmente em relação à educação superior?

Sempre buscamos formar poucas pessoas. Costumam dizer que antigamente as escolas eram melhores, ora, antigamente não existia escola privada, existiam apenas as escolas públicas e essas eram para uma elite da classe média, era para poucos. Com a expansão da educação, sobretudo o Ensino Superior, o acesso ficou mais restrito e se tem que preparar alguém para entrar na Universidade.

Por exemplo, o CEFET aprova dez alunos, em média para a faculdade de medicina em São Paulo, ou seja, as escolas públicas estão melhorando sim, mas quem continua ocupando esses espaços, ou seja, os bons espaços, é a classe média.

O Governo do Estado do Rio de Janeiro foi o primeiro a implantar o sistema de cotas, na UERJ e UENF. Para o Senhor este sistema irá se firmar neste Governo como uma política de Estado?

O Governo do Sergio Cabral vai prosseguir com a política de cotas, no entanto, eu acredito que essa política tem que ser trabalhada. Até por que, eu, assim como outros intelectuais, que se dispõem a defender a política de cotas abertamente, somos taxados de racistas, como se estivéssemos aumentando o racismo.

Alguns nomes da esquerda acham que esse tipo de política é muito “americanizada" e não é bem assim, nos Estados Unidos o ensino é gratuito e excelente. A educação primaria americana é excelente. Devíamos copiar esse modelo.

Existe muita dificuldade na implementação da Lei 10.639/03 (que trata do ensino da História da África nas escolas). Uma das maiores dificuldades é a capacitação dos professores.

Como a secretária de educação pode viabilizar essas capacitações.

Interessante é que o Estado da Paraíba já está fazendo alguns livros sobre História da África para adotarem no Ensino Médio. Quanto o Rio de Janeiro,que normalmente coloca as coisas em prática antes dos outros Estados, ainda precisa avançar mais. A Paraíba é um Estado que está à frente, que realmente está querendo implementar essa Lei.

Estamos vendo parcerias para viabilizarmos essa lei, mas é necessário que as pessoas reivindiquem, que cobrem ações que venham acelerar este processo, para que o assunto não venha ficar fora da nossa realidade.

E pela experiência do senhor, qual o caminho que o senhor acha que seria melhor a ser tomado?

Eu estive em alguns seminários da UNESCO sobre tráfico de escravos e, lá, foi falado que os portugueses levaram os negros cativos até mesmo pro Japão, numa média de 100 milhões de negros, onde a grande maioria falecia no trajeto.

O povo brasileiro mesmo, não tem muito acesso a história do negro no Brasil, até por que Ruy Barbosa mandou queimar os documentos referentes à escravidão, então nós brasileiros não temos acesso a nossa história, a história dos negros no Brasil. Eu fui conhecer mais a história dos negros africanos, da situação que a África enfrenta, quando eu morei lá, durante quatro anos.

Acredito que essa realidade tem que ser mostrada para a população, esse seria um bom inicio.


*Renato Ferreira é coordenador do PPCor