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Numa época em que debates altamente polarizados
em torno da legitimidade, do presente e do futuro da ação afirmativa ocorrem
tanto no Brasil quanto nos EUA, estudos como Affirmative Action in the United States and India: A Comparative
Perspective (2004), de Thomas Weisskopf, são extremamente bem-vindos. Na
melhor tradição acadêmica, este é um estudo baseado em termos claramente
definidos, dados empíricos confiáveis e uma rigorosa análise livre de
radicalizações desnecessárias.
Chamo atenção para a definição que, segundo
ele, ação afirmativa veio a ter nos EUA atualmente: a provisão de “um certo grau
de preferência, em processos de seleção para posições desejadas, por membros de
grupos que eram pouco representados nessas posições” (tradução minha), porque
aponta para o uso de tratamento diferenciado a fim de compensar por práticas
discriminatórias passadas. Políticas de ação afirmativa têm a ver com a
reparação de erros passados para que a sociedade finalmente se aproxime do
ideal da “igualdade política e legal dos cidadãos”.
Também enfatizo seu ponto sobre a conseqüência
derradeira da ação afirmativa, independente da forma que assumir: a entrada, na
elite, de indivíduos qualificados que, devido ao preconceito e à discriminação
contra o seu grupo, foram historicamente excluídos. É importante destacar isso
porque muitos detratores das políticas de ação afirmativa comumente as associam
com o demérito. Ao contrário, em tese, os beneficiados da ação afirmativa são
semelhantes à elite, com exceção de sua aparência ou associação grupal. Se eles
se assemelham, não estamos falando de mudar completamente o perfil do grupo
tradicionalmente privilegiado. Em outras palavras, a criação e a implementação
das políticas de ação afirmativa não constituem uma revolução, mas uma reforma
social.
Se é uma reforma, é possível, sociologicamente
falando, que as políticas não sejam um completo sucesso. Embora seja óbvio,
cabe mencionar isso porque tem sido um ponto de contenção no debate brasileiro:
por um lado, os que veementemente se opõem à ação afirmativa freqüentemente o
fazem porque eles focam na possibilidade de fracasso. Por outro lado, os que são
completamente a favor das poíticas tendem a ignorar cegamente aquela possibilidade.
Porém, nós que estudamos sociedades e comportamento social sabemos que nenhuma
medida é totalmente um sucesso ou um fracasso. Mais propriamente, toda política
social tem custos e benefícios em potencial. Portanto, precisamos de uma
análise dos custos e benefícios da ação afirmativa em vez de ficarmos presos à
ilusão de que ela é completamente boa ou completamente ruim. E isso é
justamente o que Weisskopf alcança com seu trabalho, ao analisar o clássico
caso da ação afirmativa na Índia. Só por essa razão, seu trabalho já é bem
superior a um livro, muitas vezes citado (e também publicado em 2004), cujo
autor se propõe a oferecer “uma análise empírica” da ação afirmativa ao redor
do mundo, mas que, valendo-se de dados antigos, convenientemente conclui que a
ação afirmativa é um mal desnecessário.
Para nós estudantes da implementação da ação
afirmativa no Brasil, a obra de Weisskopf também é útil por descrever a
situação indiana. A parte mais visível do programa brasileiro de ação
afirmativa são as cotas raciais na universidade. Muitos brasileiros
erroneamente associam essa política aos EUA, quando, de fato, é muito mais
parecida com a Índia, onde ela foi instituída logo após a independência, ao fim
dos anos 40, para tratar da exclusão social sofrida pelos dalits e adivasis. Outra
semelhança entre o Brasil e a Índia é que, em ambos os países, os beneficiados
originais das políticas constituem uma proporção numerosa da população total,
ao contrário dos EUA, onde os afro-americanos (o grupo-alvo original)
permanecem em torno de 10% da população. Por fim, como o programa indiano
precede o americano em quase 20 anos, seu estudo permite avaliações de custo-benefício
a longo prazo, o que Weisskopf faz ao se concentrar nas conseqüências das
reservas de vagas nas universidades indianas.
Uma semelhança significativa entre os programas
indiano e americano é o fato de ambos terem expandido suas populações alvo. Nos
EUA, o programa agora inclui praticamente todos menos os homens brancos,
enquanto que na Índia, o programa se estendeu às chamadas “outras classes
atrasadas” (Other Backward Classes, em inglês). Essa expansão tem uma importante conseqüência: quantos mais grupos se beneficiam da
ação afirmativa, menos se beneficiam os grupos originalmente selecionados, seja
por pura aritmética, seja pela possibilidade que, em vista da resistência ao
programa, os recursos fiquem escassos. O mesmo se poderia dizer sobre a metamorfose
dos programas de ação afirmativa em programas de “diversidade”, tal como tem
ocorrido nos EUA. Menos oportunidades existem para os afro-americanos, muitos
dos quais, apesar de terem alcançado o status de classe média, continuam a
ficar atrás em nível educacional e rendimento. Como já mencionei (Penha-Lopes
2007a), assim como as mulheres anglo-americanas foram as mais beneficiadas pela
ação afirmativa—e os homens afro-americanos, os menos—, o mesmo poderia ocorrer
no Brasil, onde o ímpeto para um programa de ação afirmativa adveio dos vários
segmentos do Movimento Negro antes de o governo federal começar a formulá-lo em
1995.
Para os fins do Brasil, o ponto que Weisskopf desenvolve
sobre a extensão do apoio a beneficiados despreparados é crucial. Enquanto aqui
o debate permanece em torno de se as cotas universitárias deveriam existir (embora
elas continuem a expandir), menos se fala sobre o que acontece com os alunos
uma vez que ingressam nas universidades. Grupos historicamente discriminados
necessitam de todo o apoio. Quanto menores os recursos, maior a probabilidade
de fracasso. Por exemplo, os R$190 por mês que os alunos cotistas recebem por
dois semestres na UERJ mal cobrem os custos de transporte, sem contar com os
outros custos educacionais, tais como a compra de livros e fotocópias.
Quanto aos benefícios específicos da ação
afirmativa na Índia, Weisskopf verifica que indivíduos dos grupos
tradicionalmente desprivilegiados realmente ingressam nas elites profissionais.
Isso se deve à ajuda que a ação afirmativa lhes dá em aumentar não só seu
capital humano (i.e., o que eles sabem), mas também seu capital social (i.e.,
quem eles conhecem). Depender das relações sociais é uma condição humana.
Quanto melhores as nossas conexões, maiores as nossas chances de incrementar os
nossos ganhos. Obviamente, freqüentar escolas seletivas também aumenta essas
chances, de modo que se torna particularmente importante para os beneficiados
da ação afirmativa freqüentar escolas de prestígio, em vez de qualquer escola.
Entre os custos da ação afirmativa na Índia,
Weisskopf cita a exacerbação das divisões étnicas e de casta, algo que outros
autores também já notaram (ex., Sowel 2004). Não estou certa de que eu as vejo
inteiramente como um custo, já que elas vêm, como ele coloca, de uma “maior
conscientização da identidade grupal”. Pergunto: é possível a dissensão
esmorecer à medida que a sociedade se acostuma à conscientização que as pessoas
adquirem sobre suas identidades? Também pergunto: a estigmatização dos
beneficiados da ação afirmativa, observada na Índia, é forte o suficiente para
tornar problemática aquela política? Ou é a estigmatização um aspecto de um
preconceito que se manifestaria de outras formas se a ação afirmativa não
existisse?
Weisskopf apresenta dados em que é inegável o
pior desempenho dos beneficiados da ação afirmativa na Índia e nos EUA em
comparação aos alunos universais. Embora há várias explicações para isso,
incluindo os efeitos cumulativos de uma educação pré-universitária desigual, não
devemos pensar que é um problema inevitável. De fato, segundo os
recém-liberados dados da UERJ,** o
desempenho cumulativo dos alunos cotistas foi digno de nota: entre 2003 e o
segundo semestre de 2006, o CR médio dos alunos cotistas superou o CR médio total
em um número dos 48 cursos com regime de crédito. Comparativamente falando, o
melhor desempenho foi o dos cotistas egressos de escolas públicas, cujos CR
médios foram maiores em 36 cursos, ou 75% do total, incluindo Nutrição,
Ciências Econômicas e Ciências Sociais. Os alunos que entraram por cotas para
deficientes físicos ou indígenas obtiveram um CR médio maior que a média total
em apenas 10 dos cursos, como, por exemplo, Serviço Social, Filosofia e
Geografia; os cotistas negros tiveram desempenho melhor que a média em 29 dos
cursos (60% do total), incluindo Ciências Biológicas, Ciências Contábeis e
Português-Alemão. Já os alunos universais superaram o CR médio em apenas 17 dos
cursos, notadamente Direito, Engenharia e Engenharia Química (SR1/DINFO 2007). Embora
análises detalhadas são necessárias, é encorajador saber que a visão das cotas
universitárias no Brasil como um completo fracasso é, no mínimo, uma distorção
da realidade.
Por fim, Weisskopff menciona a necessidade de
se avaliarem as carreiras dos beneficiados além do ensino universitário. Para
ele, tal medida atende à necessidade de se compreender a extensão da inserção
dos beneficiados na elite e o sucesso de suas carreiras profissionais. À medida
que os primeiros cotistas universitários brasileiros se formam—a turma
pioneira, a de 2003, já o fez, com desempenhos notáveis (Penha-Lopes 2007b)—, é
extremamente necessário que se acompanhe sua entrada no mercado de trabalho.
Poderemos, então, avaliar concretamente os custos e benefícios da políticas de
cotas no Brasil. Talvez assim nos distanciaremos de uma vez por todas deste
debate profundamente polarizado e, por conseguinte, estéril, acerca da
implementação da ação afirmativa no Brasil.
Referências
PENHA-LOPES, Vânia. 2007a. “Ação afirmativa
nos EUA: um ‘fracasso’?” Afropress,
12 de julho. http://www.afropress.com/colunista_2.asp?id364.
PENHA-LOPES, Vânia. 2007b. ““Pioneiros: Os Primeiros Cotistas da UERJ”.
Palestra de Conclusão do Pós-doutorado. Programa de Pós-graduação em Ciências
Sociais, Universidade do Rio de Janeiro, 1 de agosto.
SR1/DINFO. 2007. “CR médio por curso dos alunos ingressantes por vestibular a
partir de 2003, excluindo-se os ingressantes no período letivo atual, oriundos
ou não da reserva de vagas, separando-os pelo tipo de vaga ocupada”. SAG, Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
SOWEL, Thomas. 2004. Affirmative Action
around the World: An Empirical Analysis. New Haven:Yale University Press.
WEISSKOPF, Thomas E. 2004. Affirmative
Action in the United States and
India:
A Comparative Perspective. Londres e Nova Iorque: Routledge.
* A autora apresentou uma versão deste texto na 2ª.
Conferência Internacional da Rede de Estudos sobre Ação Afirmativa. IUPERJ, em 23
de setembro de 2006.
** Meus sinceros agradecimentos a Luís Carlos Serafim, do SINTUPERJ, ao
Prof. Dr. Antônio Carlos Moreira da Rocha, do CTC, à DINFO e à SR-1, da
Universidade do Estado do Rio de Janeiro, pela disponibilização dos dados.
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