Programa Políticas da Cor na Educação Brasileira

 Boletim Número 04 | segunda-feira, 23 de junho de 2003

 

 

 

 

 

 

 


Preto e branco

Mirian Leitão


O IBGE divulgou ontem mais uma de suas valiosas “Síntese dos Indicadores Sociais”, que vem mostrando há anos a mesma vergonhosa realidade de um país profundamente desigual. Já sabida, mas sempre assustadora, é a desigualdade racial: entre os brasileiros que estão no grupo de 1% mais rico do país, 88% são brancos; entre os 10% mais pobres, 70% são pretos ou pardos.

Os jornais hoje mostram dados e gráficos eloqüentes de que a desigualdade brasileira tem que ser analisada também pelo viés racial. Este assunto tem freqüentado esta coluna por vários motivos. Falando do mais decisivo: não haverá democracia estável nem economia sólida se o Brasil não tirar a venda que o tem impedido de ver o enorme fosso que separa brancos de negros e agir para corrigir o problema. No debate que tem ocupado a mídia nos últimos anos — depois de mais de um século de silêncio cúmplice — os mesmos falsos argumentos reaparecem: de que não há racismo, mas apenas discriminação social; de que é difícil qualquer ação afirmativa porque seria discriminatória; que somos todos afro-descendentes, afinal todos têm, pelo menos, um ancestral negro; de que o Brasil é um dégradé de cores dificultando políticas focadas na questão racial.

Qualquer pessoa que se disponha com sinceridade a estudar o que se passa no Brasil, sem medo de encontrar a verdade, verá que estes argumentos são manobras escapistas. O que pesa sobre os negros no Brasil é o que o sociólogo americano Charles Tilly chama de “desigualdade durável”. A distância resiste porque foi criada por discriminação.

Todos os brasileiros podem ter algum tanto de sangue negro, mas sobre os pretos e pardos de pele é que pesa o preconceito que torna mais difícil, ou impossibilita, sua ascensão na escala social. O Brasil pode ser um
dégradé, mas olhe os dados que estão no jornal de hoje: pretos e pardos estão próximos em qualquer indicador social. Na frente, em vantagem, estão os brancos.

Mulheres ganham menos do que os homens e têm hoje mais escolaridade. Como é possível, se todos os estudos mostram que mais escolaridade é igual a mais renda? É que contra as mulheres também foram erguidas barreiras artificiais. Elas também são prisioneiras das desigualdades duráveis.

A desigualdade de raça é mais forte que a desigualdade de gênero: os homens negros ganham 30% menos do que ganham as mulheres brancas. O pesquisador Sergei Soares, do Ipea, fez um estudo definitivo sobre isso. Ele mostra que, de 87 a 98, as mulheres brancas avançaram nos seus salários como proporção do salário do homem branco. Era de 68% foi para 79%. A mulher negra, na pior situação, também teve ligeiro avanço, de 33% para 40%. O homem negro ficou estagnado: de 47% para 46%. O IBGE mostrou novamente ontem: “pretos e pardos recebem metade do rendimento de brancos em todos os estados e nem o aumento do nível educacional tem sido suficiente para superar a desigualdade de rendimentos”. Isso derruba a tese, tão cara à elite, de que, se o negro se esforçar, ele consegue chegar lá. Raros derrubam as barreiras, mas os dados agregados mostram que trabalhadores com a mesma escolaridade têm salários desiguais dependendo da raça. “Justamente entre a população ocupada com 12 anos ou mais de estudo, ou seja, a que já ingressou na faculdade, havia as maiores diferenças”, diz a pesquisa do IBGE.


Um dado espantoso do IBGE é que, justamente em Salvador, onde 75% das pessoas são negras, as diferenças são maiores. Lá o negro ganha um terço do que ganha um branco.

O Brasil, com sua vasta população negra — a segunda maior do mundo depois da
  Nigéria — tem que olhar seu vasto problema racial com mais sinceridade e urgência. Outros países têm feito isto. Aqui, as ações afirmativas começaram, mas sob intenso bombardeio.

Nos Estados Unidos, desde a década de 60, começaram a ser desenhadas políticas públicas e corporativas para reduzir a desigualdade. Universidades usaram critérios raciais na seleção; nas compras governamentais, é avaliado o critério de diversidade do quadro de funcionários da empresa fornecedora; nas seleções para cargos públicos são adotados até hoje esforços para a contratação de minorias; as empresas chegam a ter diretores de diversidade, cuja função é remover barreiras à contratação e à promoção de mulheres e negros. Lá eles tiveram segregação, lá eles são apenas 12,9% da população e os negros são visíveis na estrutura de poder. Os nossos, que são 45% da população, num país onde não houve segregação, são quase invisíveis na elite. Não haverá combate à desigualdade brasileira sem ação afirmativa, que o Ipea define como “medidas destinadas a preparar, estimular e promover a participação dos negros na educação e no mercado de trabalho”.

Fonte: O Globo 13 de junho de 2003

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