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Preto e branco
Mirian Leitão
O IBGE divulgou ontem mais uma de suas valiosas “Síntese dos Indicadores
Sociais”, que vem mostrando há anos a mesma vergonhosa realidade de um país
profundamente desigual. Já sabida, mas sempre assustadora, é a desigualdade
racial: entre os brasileiros que estão no grupo de 1% mais rico do país, 88%
são brancos; entre os 10% mais pobres, 70% são pretos ou pardos.
Os jornais hoje mostram dados e
gráficos eloqüentes de que a desigualdade brasileira tem que ser analisada
também pelo viés racial. Este assunto tem freqüentado esta coluna por vários
motivos. Falando do mais decisivo: não haverá democracia estável nem economia
sólida se o Brasil não tirar a venda que o tem impedido de ver o enorme fosso
que separa brancos de negros e agir para corrigir o problema. No debate que tem
ocupado a mídia nos últimos anos — depois de mais de um século de silêncio
cúmplice — os mesmos falsos argumentos reaparecem: de que não há racismo, mas
apenas discriminação social; de que é difícil qualquer ação afirmativa porque
seria discriminatória; que somos todos afro-descendentes, afinal todos têm,
pelo menos, um ancestral negro; de que o Brasil é um dégradé de cores
dificultando políticas focadas na questão racial.
Qualquer pessoa que se disponha
com sinceridade a estudar o que se passa no Brasil, sem medo de encontrar a
verdade, verá que estes argumentos são manobras escapistas. O que pesa sobre os
negros no Brasil é o que o sociólogo americano Charles Tilly chama de
“desigualdade durável”. A distância resiste porque foi criada por
discriminação.
Todos os brasileiros podem ter algum tanto de sangue negro, mas sobre os pretos
e pardos de pele é que pesa o preconceito que torna mais difícil, ou
impossibilita, sua ascensão na escala social. O Brasil pode ser um dégradé,
mas olhe os dados que estão no jornal de hoje: pretos e pardos estão próximos
em qualquer indicador social. Na frente, em vantagem, estão os brancos.
Mulheres ganham menos do que os
homens e têm hoje mais escolaridade. Como é possível, se todos os estudos
mostram que mais escolaridade é igual a mais renda? É que contra as mulheres
também foram erguidas barreiras artificiais. Elas também são prisioneiras das
desigualdades duráveis.
A desigualdade de raça é mais
forte que a desigualdade de gênero: os homens negros ganham 30% menos do que
ganham as mulheres brancas. O pesquisador Sergei Soares, do Ipea, fez um estudo
definitivo sobre isso. Ele mostra que, de 87 a 98, as mulheres brancas
avançaram nos seus salários como proporção do salário do homem branco. Era de
68% foi para 79%. A mulher negra, na pior situação, também teve ligeiro avanço,
de 33% para 40%. O homem negro ficou estagnado: de 47% para 46%. O IBGE mostrou
novamente ontem: “pretos e pardos recebem metade do rendimento de brancos em
todos os estados e nem o aumento do nível educacional tem sido suficiente para
superar a desigualdade de rendimentos”. Isso derruba a tese, tão cara à elite,
de que, se o negro se esforçar, ele consegue chegar lá. Raros derrubam as
barreiras, mas os dados agregados mostram que trabalhadores com a mesma
escolaridade têm salários desiguais dependendo da raça. “Justamente entre a
população ocupada com 12 anos ou mais de estudo, ou seja, a que já ingressou na
faculdade, havia as maiores diferenças”, diz a pesquisa do IBGE.
Um dado espantoso do IBGE é que, justamente em Salvador, onde 75% das pessoas
são negras, as diferenças são maiores. Lá o negro ganha um terço do que ganha
um branco.
O Brasil, com sua vasta população negra — a segunda maior do mundo depois
da Nigéria — tem que olhar seu vasto
problema racial com mais sinceridade e urgência. Outros países têm feito isto.
Aqui, as ações afirmativas começaram, mas sob intenso bombardeio.
Nos Estados Unidos, desde a década de 60, começaram a ser desenhadas políticas
públicas e corporativas para reduzir a desigualdade. Universidades usaram
critérios raciais na seleção; nas compras governamentais, é avaliado o critério
de diversidade do quadro de funcionários da empresa fornecedora; nas seleções
para cargos públicos são adotados até hoje esforços para a contratação de
minorias; as empresas chegam a ter diretores de diversidade, cuja função é
remover barreiras à contratação e à promoção de mulheres e negros. Lá eles
tiveram segregação, lá eles são apenas 12,9% da população e os negros são
visíveis na estrutura de poder. Os nossos, que são 45% da população, num país
onde não houve segregação, são quase invisíveis na elite. Não haverá combate à
desigualdade brasileira sem ação afirmativa, que o Ipea define como “medidas destinadas
a preparar, estimular e promover a participação dos negros na educação e no
mercado de trabalho”.

Fonte: O Globo 13 de junho de 2003
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