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Um Brasil para todos
Sueli Carneiro
Pesquisadora do CNPq e diretora do
Geledés - Instituto da Mulher Negra
Fonte: Correio Braziliense - Coluna
Opinião - 06/07/2003
O documento Plano Plurianual elaborado pelo governo coloca em suas primeiras
linhas que o PPA 2004-2007 ''está sendo construído para mudar o Brasil. Vai
inaugurar um modelo de desenvolvimento de longo prazo, para muito além de 2007,
destinado a promover profundas transformações estruturais na sociedade
brasileira. (...) É uma peça-chave do planejamento social e econômico do
governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva''.
Apesar da intenção inovadora, os
elementos de resistência chamam a atenção. O primeiro diz respeito à
invisibilidade de gênero e raça na concepção das políticas sociais desse PPA,
embora essas variáveis apresentem-se de forma inequívoca nos diagnósticos sobre
as desigualdades sociais no Brasil. Diz com freqüência o ministro José Graziano
que dentre 10 pessoas famintas no Brasil, oito são negras.
Antes dele já dizia o ex-ministro da
Educação Paulo Renato que ''pobreza tem cor no Brasil e é negra''. FHC, por sua
vez, dizia que o ápice da exclusão social no Brasil estava representado numa
mulher negra, chefe de família, trabalhadora rural das regiões Norte ou
Nordeste do país. Na mesma direção, diferentes diagnósticos sócio-econômicos
apontam o fenômeno da crescente feminização da pobreza.
De acordo com o documento Desenvolvimento
com Justiça Social: Esboço de uma Agenda Integrada para o Brasil (Policy Paper
nº 1. IETS, Rio de Janeiro 2001), ''os indicadores sociais da desigualdade
racial são contundentes e estáveis. Nesse sentido, impõem-se a iniciativa
política de levantar o manto do silêncio em torno da falsa democracia racial
brasileira e expor ao debate franco acerca do racismo e suas implicações
sócio-econômicas. (...) Esses pobres e miseráveis são, sobretudo, crianças e
negros. São os que continuam, em grande parte, invisíveis aos olhos dos
formuladores e dos gestores das políticas sociais. São os que precisam se
tornar o foco das políticas sociais.(...) São esses portanto, os pobres
invisíveis que precisam ser trazidos à luz e impostos à consciência moral da Nação.
São o coração do projeto de desenvolvimento...''
Assim posto, um Brasil para todos que
aspira a profundas transformações estruturais tem que romper, em seu
planejamento estratégico, com os eufemismos ou silêncios que historicamente vem
mascarando as desigualdades raciais e conseqüentemente postergando o seu
enfrentamento. A absoluta maioria dos excluídos tem cor e sexo e a política
social tem que expressar essas dimensões.
Outra questão é que embora a proposta
do PPA seja abrangente e ambiciosa em seus objetivos, é econômica em relação
aos resultados ou metas a serem alcançadas. Segundo o documento do IETS já
citado, ''a definição de metas é absolutamente central para orientar as ações
públicas e estabelecer critérios para o controle social...
As metas devem referir-se, de forma
integrada, tanto a indicadores sintéticos como, por exemplo, o Índice de
Desenvolvimento Humano (IDH), ou o Índice de Condições de Vida (ICV) como a
indicadores específicos desagregados (por exemplo, taxa de mortalidade, taxa de
analfabetismo, defasagem série-idade na escola, oferta e acesso a serviços
públicos, probabilidade de morte por violência etc...).''
Nesse sentido, a proposta do PPA é
também silenciosa em relação aos compromissos já assumidos pelo Estado
brasileiro com as metas internacionais de desenvolvimento acordadas nas
Conferências da ONU da década de 90, que estabelecem um marco temporal de até
2015 para que sejam alcançadas. São elas:
Redução da proporção de pessoas
vivendo em extrema pobreza em 50%; Educação primária universal;
Eliminação de disparidades de gênero
na educação (2005);
Redução da mortalidade infantil e da
mortalidade das crianças menores de cinco anos em 75%;
Redução da mortalidade materna;
Acesso universal a serviços de saúde
reprodutiva;
Implementação de estratégias nacionais
para o desenvolvimento sustentado até 2005, de forma a reverter as perdas de
recursos ambientais até 2015.
A Conferência Contra o Racismo
ocorrida em Durban estabelece uma nova meta, a 8ª, referente à redução ou
eliminação das defasagens/gaps raciais e étnicos antes de 2015 articulando as
sete metas anteriores em relação aos grupos discriminados, ou seja ''integrar a
plataforma de Durban, suas pautas e aspirações nas metas de desenvolvimento e
eliminação da pobreza acordadas pela comunidade internacional nos objetivos do
Milênio. Os grupos metas devem ser sujeitos de especial atenção na superação do
déficit educativo, na melhoria da qualidade da educação; na diminuição dos
níveis de incidência da AIDs particularmente nas populações afro-descendentes e
no aumento na participação dos grupos excluídos em seu acesso a fontes de
emprego''.
O governo brasileiro vem envidando todos os esforços para assegurar a confiança
internacional em relação aos compromissos relativos à esfera macro-econômica.
Espera-se dele o mesmo empenho em relação aos compromissos sociais e de
desenvolvimento humano acordados internacionalmente. Para isso basta incluí-los
entre os objetivos e metas desse PPA.
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