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Especial Entrevista PPCOR
17 de junho de 2003
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Foto:
Bruno
Spada
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O Programa Políticas da Cor (PPCOR) entrevistou para
este boletim o professor e antropólogo José Jorge de Carvalho, um dos autores
da proposta de cotas para negros e indígenas na Universidade de Brasília (UnB).
José Jorge contou como foi o processo que levou à
aprovação desta medida e seus principais desafios em uma das mais importantes
universidades públicas do país.
Da Equipe do PPCOR
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O resultado da votação, de 24 votos a
favor e apenas 1 contra
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PPCOR: A UnB é a primeira universidade federal do
país a adotar reserva de vagas para negros e indígenas. Como formulador da
proposta (junto à prof.ª Rita Segato) qual a sua opinião sobre os possíveis
impactos desta política, a curto e médio prazos, no contexto educacional
brasiliense?
José Jorge de Carvalho: Em
primeiro lugar, é bom lembrar que o Distrito Federal é, surpreendentemente para
muitos, a terceira região metropolitana mais negra do país (incluindo uma
imensa população parda, de identidade bastante ambígua). A população negra é
extremamente segregada nas (cidades) satélites e no entorno e as cotas
provocarão uma consciência maior dessa segregação entre os jovens. A falta de
integração é tamanha que inúmeros estudantes pobres sequer sabem que podem
solicitar isenção das taxas de inscrição no vestibular.
Minha previsão é que o Movimento Negro crescerá
ainda mais na periferia. Paralelamente, deverá aumentar o número de candidatos
negros ao vestibular da UnB. Por isso, nossa proposta inclui uma campanha de
publicidade nas cidades satélites para informar aos jovens negros do seu
direito de concorrer pelas cotas. Em contraparte, suponho que os colégios
privados e os cursinhos poderosos ficarão ainda mais caros e robotizarão os
estudantes brancos ricos ainda mais. Os dois grupos chegarão à UnB mais
afastados ideologicamente que nunca. Caberá à Comissão de Acompanhamento das
Cotas monitorar e trabalhar esse fosso racial e social e convertê-lo em uma
ponte de integração. Trabalho análogo deverá ser feito pela Secretaria de
Educação no ensino médio.
PPCOR: A Universidade do Estado do Rio de Janeiro
(UERJ) e a Universidade do Estado do Norte Fluminense (UENF) foram as primeiras
universidades estaduais a adotar o sistema de cotas. De maneira bem diferente
da UnB, a lei de cotas nestas universidades tem sido duramente criticada (e muitas
vezes mal compreendida) por parte significativa do corpo docente e discente,
alega-se que a lei fere a autonomia universitária e que não foram feitos
debates suficientes. Quais as principais diferenças e semelhanças entre os dois
processos em sua opinião?
José Jorge: As diferenças entre os dois
processos são várias e acredito que o projeto da UnB será melhor assimilado
pela comunidade universitária justamente porque tivemos debates constantes ao
longo de quatro anos. Eis algumas diferenças:
1. A UERJ foi obrigada a implementar cotas. A
comunidade universitária não havia debatido o tema e para piorar, ainda reagiu
e se posicionou contra as cotas até recentemente.
A UnB decidiu implementar cotas sem nenhuma lei
externa e após quatro anos de debate. O resultado da votação, de 24 votos a
favor e apenas 1 contra, legitima fortemente a decisão de adotar cotas. Apesar
de continuar existindo resistências entre professores e alunos, já contamos com
uma vanguarda de pessoas que se mobilizaram e que sustentarão os novos debates
que deverão acontecer.
2. Pelo que sei, a UERJ não tinha um plano de ação
prévio às cotas. A UnB votou um Plano de Metas bastante completo e integrado,
que prevê acesso, permanência e vários órgãos de apoio e de acompanhamento do
sistema.
3. A lei da UERJ não previa exatamente a duração do
sistema de ingresso pelas cotas.
O Plano de metas da UnB fixa em 10 anos o programa,
sujeito a revisão após esse período.
4. A lei da UERJ foi mandatória: 40% das vagas
deverão ser preenchidas por estudantes negros.
O conceito de cotas do nosso Plano da UnB se baseia
no que eu chamo de "vagas preferenciais disponíveis": entrarão os
estudantes negros que preencherem os requisitos de classificação, prova de
Português e habilidades específicas. Caso não haja o número de negros aprovados
pelas cotas que alcance 20% em algum curso, em algum vestibular, as vagas
preferenciais regressarão ao conjunto geral.
PPCOR: Dados oficiais mostram que as desigualdades
no acesso ao ensino superior público são grandes entre brancos e negros. Além
das políticas de cotas raciais existiriam outros mecanismos capazes de
assegurar o processo de redução no acesso de negros nas universidades?
José Jorge: A curto prazo o único mecanismo
de que dispomos para começar a descontar esse quadro de desigualdade é a cota,
por isso considero sua implementação imprescindível e inadiável. Dito de outro
modo, a primeira conseqüência séria que devemos tirar dos dados do IBGE é que
não podemos continuar com políticas universalistas. Se quisermos de fato
começar a eliminar o nosso racismo acadêmico teremos que atacar esse quadro por
todos os lados: cotas no vestibular, sistema de preferência nas seleções para a
pós-graduação (mestrado e doutorado) e preferência nos concursos para
professores e nas bolsas de pesquisa. Isso, evidentemente, aliado a uma
ampliação das vagas nas universidades públicas.
PPCOR: Nos últimos anos o debate sobre cotas tem
praticamente dominado a agenda política dos movimentos negros e da própria
imprensa, tradicionalmente refratária a este tipo de discussão. A ênfase
somente em cotas raciais não obscureceria o debate mais amplo sobre políticas
de ações afirmativas?
José Jorge: Penso que não, porque a
discussão de cotas está amadurecendo muito. Seus defensores enfatizam sempre que
o acesso apenas não basta e por isso defendem também os vários mecanismos de
permanência e o apoio aos pré-vestibulares, além da pressão por mais recursos
para as universidades.
PPCOR: Os adversários das políticas de ação
afirmativa geralmente alegam que não basta tentar resolver o problema da
exclusão dos negros na ponta do sistema educacional, insistindo assim, na
formulação de políticas de cunho universalista. Por outro lado, defensores de
ações afirmativas enfatizam que as cotas não visam dar conta de todas as
deficiências enfrentadas hoje na educação brasileira, mostrando que tais
iniciativas só podem ser entendidas como temporárias e contextuais. Que outra
medida poderia vir acompanhada de tais políticas?
José Jorge: Primeiro, insisto em que não devemos
ter medo de proclamar a urgência da implementação de cotas. É certo que cota
não é suficiente, mas é condição necessária no Brasil, devido ao escândalo que
foi o crescimento do nosso ensino superior ao longo do século vinte, que deixou
os negros praticamente de fora das universidades. Não se pode perder um
semestre mais sem assegurar cotas e nossos Conselhos Universitários possuem
autonomia suficiente para tomar a decisão de abrir acesso e permanência para
estudantes negros. Já as demais medidas correspondem em grande parte ao MEC. O
Programa Diversidade na Universidade, por exemplo, deve ser
intensificado e ampliado como complemento à abertura de cotas, porque ajuda a
criar um clima permanente de discussão acerca da importância das ações
afirmativas, através de apoio aos pré-vestibulares, da pesquisa de professores
e de alunos e da divulgação da situação dos negros nas nossas universidades.
PPCOR: A Secretaria Especial de Promoção da
Igualdade Racial, criada pelo governo Lula, é abertamente favorável às
políticas de cotas. Este conjunto de iniciativas favoráveis à inclusão dos
negros no ensino superior (e em outros setores) estariam sinalizando para uma
mudança no padrão das relações raciais no Brasil?
José Jorge: Penso que sim. O padrão de
relações raciais no Brasil sempre foi perverso, falso e esquizofrênico:
apresentou-se universalmente como positivo, mas só foi favorável aos brancos e
desfavorável aos negros. Já é hora de que mude, de qualquer maneira, para algo
melhor. A criação da SEPPIR é, a meu ver, um dos atos políticos mais
revolucionários de toda a história do Brasil e devêmo-lo a Lula. Com a
Secretaria e com a atual efervescência pelas medidas de ações afirmativas,
acredito que é toda uma idéia de Brasil que se torna, finalmente, obsoleta. E uma
nova idéia, mais verdadeira porque começa por admitir abertamente que somos um
país racista, começará a ser construída através de uma parceria, também nova,
entre acadêmicos, intelectuais e políticos negros e brancos, ambos trabalhando,
pela primeira vez, juntos, sem subalternidade e sem eufemismos.
Leia aqui as propostas apresentadas:
Uma
proposta de cotas
para estudantes
negros na Universiade
de Brasília
Plano
de metas para a
integração social,
étnica e racial
da Universidade
de Brasília
Síntese
da proposta de ação
afirmativa para
estudantes negros,
índios e egressos
da escola pública
na Universiade de
Brasília
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