Cotas de igualdade e de
desigualdade
JB
Online, 23/FEV/2003
Emir
Sader
Todos
são iguais diante da lei. Na sociedade mais desigual do
mundo, aí começa a injustiça.
A
igualdade jurídica foi uma grande conquista democrática
contra os Estados absolutistas, os privilégios feudais,
as concepções que misturam política e religião, a
escravidão e a servidão. No entanto, desde que passaram
a encimar todas as constituições de origem liberal, a
desigualdade no mundo aumentou, ao amparo de leis que ou
são esvaziadas e ficam no papel, ou acobertam mal e mal
a reprodução ampliada das desigualdades.
No
Brasil, sabe-se que a Lei de Terras, de meados do século
19, precedeu o fim da escravidão, legalizando a posse
das terras pelos latifundiários e bloqueando a
possibilidade dos escravos que se tornavam ''homens
livres'' de terem acesso à terra. Sabemos que a
transformação da questão da escravidão na questão da
terra é um dos fatores fundamentais que fazem do Brasil,
até hoje, um país estruturalmente desigual e injusto.
O
recente início da corajosa política de cotas de acesso à
universidade, posta em prática pela Uerj, levanta uma
série de contestações - de argumento e judiciais -, que
invocam a igualdade jurídica garantida pela Constituição
e aparentemente se sustentam em argumentos democráticos.
No entanto, o que é que eles escondem?
Como
à igualdade jurídica não se seguiram a igualdade nos
planos econômico, social, político e cultural, os negros
e os pobres continuarão ''menos iguais'' que os outros.
Entra ano sai ano, entra governo e sai governo, com
ditadura ou com democracia, com recessão ou com expansão
econômica, a desigualdade social e racial persiste.
Quando a ditadura militar acelerou a degradação do
ensino público no Brasil, este deixou de conter no seu
seio a saudável convivência entre crianças e jovens das
classes média e pobre, com aqueles fugindo, na medida do
possível, para escolas privadas. Consolidou-se,
paralelamente ao modelo seletivo de consumo das altas
esferas do mercado, uma linha de classe entre as escolas
públicas - amplamente majoritária em quantidade de
alunos - e privadas, com a deterioração da qualidade
daquelas e o privilégio dos que têm recursos para ter
acesso a esta para aceder às universidades públicas. O
governo de FH, ao criminalizar as universidades
públicas, tratou de impor a universidade pública paga.
Não conseguiu, mas deixou argumentos tão falsos quanto
cruéis, sem alterar em nada a mercantilização do ensino
- uma das piores heranças do governo FH.
A
política de cotas não resolve nem poderia resolver o
problema da injustiça social no Brasil e nem sequer no
meio educacional, mas somente por colocar temas
essenciais em discussão, já teria valido a pena. No
entanto, o mais importante é que cria espaços de
promoção para os que são reiteradamente postergados o
acesso às universidades públicas e têm tantas vezes de
se contentar com péssimas universidades privadas,
pagando muito caro por um ensino de qualidade muito ruim
- como todas as avaliações demonstram.
O
argumento que esgrimem os que tentam com recursos
judiciários ganhar vagas nas universidades é a igualdade
diante da lei. Mas é preciso verificar se eles
conseguiram obter resultados melhores que os que os
alunos das cotas por capacidade própria ou por ter tido
recursos econômicos e ter freqüentado escolas privadas e
cursinhos pagos? Neste caso, é a desigualdade que os fez
terem obtido esse resultado. Portanto, é a desigualdade
que os fez chegar à pontuação. E no entanto é em nome da
''igualdade'' que eles querem obter vagas em detrimento
dos discriminados econômica, social e racialmente.
Não
se quer sacrificar o sonho dos filhos de classe média de
ter acesso às melhores universidades, mas a luta é
outra. Não é a de punir os pobres e negros, para
conseguir ter esse acesso. Se fizeram escolas e
cursinhos privados, deveriam buscar universidades
privadas ou então - a verdadeira e boa solução - lutar
pela melhoria do ensino público, pela extensão dos
recursos, da contratação de professores, das verbas de
pesquisa e das vagas nas universidades públicas.
Uma
sociedade democrática deve garantir acesso livre e
universal a todos nas escolas públicas, gratuitas e de
boa qualidade. Esse é o horizonte de luta de todos os
jovens que lutam pelo direito inalienável de acesso ao
conhecimento, à ciência, à cultura e à técnica, que são
patrimônios universais. O essencial não tem preço,
educação não deve e não pode ser mercadoria. Para
produzir cidadãos livres, uma sociedade democrática deve
generalizar o ensino público e gratuito a todos. A
política de cotas é transitória, é um instrumento do
resgate dos que foram e são preteridos e discriminados.
Aperfeiçoá-la é compromisso dos que querem um país de
homens e mulheres livres, conscientes, desalienados e
donos do seu destino, para que a igualdade seja regra
geral e não produto de políticas de cotas.
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