PGM 2 - Protagonistas do multiculturalismo

Por um multiculturalismo democrático

Sueli Carneiro1

Gênero, raça/etnia, orientação sexual, religião e classe social são algumas das variáveis que se impõem contemporaneamente, conformando novos sujeitos políticos que demandam ao Estado e à sociedade por reconhecimento e políticas inclusivas.

A emergência desses novos atores decorre da insuficiência da perspectiva universalista para contemplar as diferentes identidades sociais e realizar um dos fundamentos da democracia, que é o princípio de igualdade para todos. A imposição de um sujeito universal ao qual todos os seres humanos seriam redutíveis obscureceu, ao longo dos tempos, as ideologias discricionárias que promovem as desigualdades entre os sexos, as raças, as classes sociais, as religiões etc... São elas: o patriarcalismo que, ao instituir como natural a hegemonia do sexo masculino justifica todas as formas de controle, violência e exclusão social da maioria dos seres humanos que pertencem ao sexo masculino; o elitismo classista determinado por modos de produção que instituem classes minoritárias abastadas, que submetem e exploram maiorias despossuídas; homofobia decorrente da imposição da heterossexualidade como forma exclusiva de relacionamento afetivo e sexual e condenação arbitrária, muitas vezes violenta, do relacionamento entre pessoas do mesmo sexo; fundamentalismo religioso responsável por grande parte dos martírios ocorrido na história da humanidade, em que cada denominação religiosa, ao buscar impor o seu Deus aos outros, transformam-no, paradoxalmente, em uma das principais fontes de intolerância do mundo; racismo que, ao eleger que um grupo racial é superior ao outro, provoca a desumanização de grupos humanos, justificando as formas mais abjetas de opressão, tais como a escravidão, os holocaustos e genocídios e de discriminação étnica e racial.

Essas são algumas das ideologias que conspiram contra a consolidação da democracia e o pleno gozo dos direitos de cidadania para maioria da população em nosso país, tornando o homem branco, de classe superior e heterossexual, no único tipo humano a desfrutar plenamente do exercício de direitos e poder em nossa sociedade. Por isso eles, embora se constituam uma minoria, estão em absoluta maioria nas instâncias de mando e de poder da sociedade.

É em função dessa evidência que adentram a cena política os movimentos de minorias políticas como o Movimento de Mulheres lutando pela igualdade de gênero, de gays e lésbicas pelo direito e respeito à orientação sexual diferente, de negros ou afrodescendentes por igualdade de direitos etc. Ou seja, a afirmação da diferença constituindo-se num pressuposto para conquistar a igualdade. E dentre elas, a questão racial aparece no momento como aquela que maior peso tem na estruturação das desigualdades sociais no Brasil, impactando todos os indicadores sociais, como se pode auferir pelos estudos realizados pelo IBGE, IPEA, DIEESE entre outros. Por isso, a enfatizamos nesse artigo.

A temática da diversidade sempre esteve presente no debate nacional e informou as principais teses sobre a identidade nacional ou da formação do País enquanto nação.

Triunfou, neste debate, um discurso ufanista em relação ao caráter plural de nossa identidade nacional, a despeito desta ter sido construída a partir de uma perspectiva hierárquica, segundo a qual no topo se encontram os brancos responsáveis pelo nosso processo civilizatório e na base os negros e indígenas, contribuindo com pinceladas culturais exóticas, que caracterizariam o jeito especial de ser do brasileiro.

A primeira questão que esta visão coloca é a despolitização dos processos de exclusão e discriminação que os "diferentes" sofrem em nossa sociedade, como também escamoteia a forma pela qual historicamente este "diferente" vem sendo construído em oposição a uma universalidade cultural branca e ocidental, supostamente legítima para se instituir como paradigma, segundo o qual os diversos povos do mundo sejam avaliados.

Há um outro viés neste debate sobre diversidade. Ele é tão melhor aceito quanto for capaz de encobrir um elemento básico e estruturante da nossa sociedade que é o racismo, o maior tabu da sociedade brasileira, em relação ao qual há uma verdadeira conspiração de silêncio.

As organizações negras vêm, ao longo das últimas três décadas, denunciando os processos de exclusão a que os negros estão submetidos na sociedade brasileira.

No mercado de trabalho, sensibilizando as entidades sindicais para a incorporação da luta contra o racismo e pela utilização dos mecanismos internacionais que combatem as discriminações no âmbito do trabalho. E, para o setor empresarial, sensibilizando-o para a adoção de políticas de diversidade em seus processos de seleção. Ocupam-se ainda em projetos de capacitação e reciclagem da mão-de-obra negra para o mercado de trabalho.

As ações que vêm sendo realizadas pelas organizações negras no campo da educação expressam-se em diferentes dimensões dessa temática, incidindo sobre a educação formal nos diferentes níveis; na produção e avaliação crítica de instrumentos didáticos; em projetos de formação para o exercício da cidadania, para a capacitação para o mercado de trabalho, para o fortalecimento da capacidade de pressão sobre o Estado.

A compreensão de que o racismo e a discriminação impedem a distribuição igualitária da Justiça no Brasil vêm motivando diversas iniciativas. A Constituição de 1988, ao tornar o racismo crime inafiançável e imprescritível, criou uma oportunidade nova de enfrentamento do racismo na esfera legal. Desde então, essa perspectiva jurídica fez surgir projetos exemplares e pioneiros, como os SOS Racismo, serviços de assistência legal para vítimas de discriminação racial, uma experiência exitosa que já se multiplicou em diversos estados do país e em alguns dos países da América Latina.

No campo da cultura, são inúmeras as experiências de politização das expressões culturais negras, no sentido do fortalecimento da identidade étnica e racial da população negra, tais como as oriundas dos terreiros de candomblé, das bandas de rap ou dos blocos afros. Avançou a organização política das comunidades remanescentes de quilombos, adquirindo dimensões nacionais, e elas demandam cada vez com maior contundência ao Estado o direito pela titulação de suas terras ancestrais e a um desenvolvimento sustentado.

As organizações negras vêm monitorando e denunciando as práticas discriminatórias presentes nos veículos de comunicação de massa e através dos casos exemplares de discriminação mobilizam a opinião pública para o debate da questão racial. Essas denúncias e críticas vêm obrigando os veículos de comunicação a ampliarem e diversificarem a presença de negros nesses veículos, em especial na televisão.

As organizações de mulheres negras, por sua vez, vêm desenvolvendo uma série de experiências-modelo em diversos campos, tais como em comunicação, novas tecnologias, advocacy em mídia; atendimento jurídico e psicossocial a mulheres vítimas de violência doméstica e sexual; experiências inovadoras na abordagem das seqüelas emocionais produzidas pelo racismo. E, sobretudo, as organizações de mulheres negras impulsionaram a intervenção do ponto de vista racial na questão da saúde, dando visibilidade às questões das doenças étnicas/raciais ou doenças de maior incidência entre a população negra, denunciando o viés controlista sobre a população negra que a esterilização tem no Brasil.

Portanto, as organizações negras vêm desenvolvendo um conjunto de "boas práticas", ou de experiências exemplares, em nível nacional, para a inclusão efetiva dos negros na sociedade brasileira.

Essas experiências expressam a responsabilidade que os negros organizados têm em relação à população negra, a busca de construção de uma rede de solidariedade baseada na identidade racial e na consciência do pertencimento a uma comunidade de destino fundada numa experiência histórica compartilhada. Essas práticas visam à superação da discriminação racial e, sobretudo, oferecer ao Estado e aos governos modelos para políticas públicas que, ao beneficiarem a comunidade negra, promovam a realização da igualdade de direitos e oportunidades.

A sociedade civil negra vem fazendo a sua parte: denuncia, reivindica, formula e implementa propostas inclusivas. No entanto, essas ações alcançam baixa visibilidade e pouca adesão e solidariedade do conjunto da sociedade.

A problemática racial requer vontade política dos governos, empresas e demais instituições da sociedade para a adoção de políticas que rompam com a apartação racial existente no Brasil, que se exprime nos índices de desigualdades raciais em alguns indicadores superiores aos encontrados para a África do Sul.

Como indica a atual propaganda da Fiat, "é hora de mudar os nossos conceitos". Isso implica, por exemplo, desnaturalizar a heterossexualidade, a hegemonia masculina, a supremacia branca. Nesse último caso, exige, sobretudo, no rompimento com o "conforto" do mito da democracia racial, em prol do reconhecimento de que é imperiosa a correção das injustiças sociais motivadas pela exclusão dos negros, em especial das mulheres negras em nossa sociedade.

É uma exigência ética, um pressuposto para a consolidação da democracia e condição de reconciliação do país com sua história, no sentido da construção de um futuro mais justo e igualitário para todos.

Uma inspiradora abordagem da questão do multiculturalismo no Brasil nos é oferecida por Jacques Dadesky em seu livro Racismo e anti-racismo no Brasil.

Partindo da noção hegeliana de reconhecimento, Dadesky nos anuncia que é o desejo de reconhecimento que nos leva à luta. Desejo de reconhecimento de nossa igualdade e dignidade humanas, o que se traduz politicamente na luta pelo direito igualitário aos bens materiais e simbólicos de prestígio da sociedade. Desejo de reconhecimento de nossa identidade cultural diferenciada, do qual decorre a luta pelo direito de sermos quem somos, sem precisar nos negar para sermos aceitos.

Para Jacques Dadesky, são esses os eixos de luta que estruturam o discurso e a práxis anti-racista dos Movimentos Negros Brasileiros em resposta ao racismo característico de nossa sociedade que, segundo ele, ao fundar-se num tipo de pluralismo étnico que prescinde de um tratamento igualitário das diferentes culturas, legitima as hierarquias e desigualdades materiais e simbólicas entre os grupos étnicos e raciais.

Da exegese das contradições colocadas por essa forma de racismo e do tipo de anti-racismo que ele produz, Dadesky retirará o substrato para a formulação de sua concepção de um multiculturalismo democrático capaz de realizar, a um só tempo, o reconhecimento da igualdade da cidadania e do valor igualitário intrínseco das diferentes culturas.

Tal como afirma o jurista negro Jorge da Silva: "a cidadania plena se afirma pela conjugação do desfrute dos direitos civis, dos direitos políticos e dos direitos sociais. A situação dos cidadãos negros pode ser aferida pela garantia desses direitos: de liberdade de ir e vir (e não ser molestado pela polícia como ‘suspeito’ em função da cor da pele); de ser lembrado para ocupar posições de confiança e destaque; da possibilidade de acesso ao trabalho digno e à moradia; de educar-se nas mesmas condições dos cidadãos da classe média e de acesso aos sistemas de saúde, público ou privado".

Portanto, da forma pela qual a sociedade brasileira enfrentar estas questões depende o projeto de nação inclusiva que todos desejamos ou a consolidação do projeto de nação excludente que vem sendo construído a mais de 500 anos de extermínio dos povos indígenas e de marginalização social dos negros em prol do desejado embranquecimento racial, étnico e cultural do país.

Bibliografia

D’Adesky, Jacques. Pluralismo Étnico e Multiculturalismo -Racismos e anti-racismos no Brasil. Ed. Pallas, 2001.

NOTAS:

  1. Sueli Carneiro é diretora do Geledés - Instituto da Mulher Negra, pós-graduanda em Filosofia da Educação pela Universidade de São Paulo e articulista do jornal Correio Braziliense.